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Na abertura, o diretor-superintendente do SESI, Paulo Mol, destacou que avançar para uma visão integral da saúde exige acompanhar a trajetória do trabalhador ao longo do tempo, (Fotos: Divulgação)
Evento em São Paulo reuniu lideranças e especialistas para discutir integração, prevenção e uso de dados na assistência
Como transformar diferentes atendimentos, informações e serviços de saúde em uma jornada contínua, capaz de acompanhar as pessoas antes, durante e depois de um problema de saúde? Esse foi um dos principais desafios discutidos na segunda edição do Conecta Saúde, realizada na terça-feira (1), em São Paulo.
Promovido pelo Serviço Social da Indústria (SESI) e pelo Conselho Nacional do SESI (CN-SESI), com apoio da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (FIESP), o encontro reuniu mais de 500 participantes, entre lideranças empresariais, gestores públicos, representantes do setor de saúde e especialistas.
A proposta central do evento foi discutir como superar a fragmentação dos serviços e construir uma jornada de cuidado mais integrada, preventiva e contínua, com reflexos tanto na qualidade de vida dos trabalhadores quanto na sustentabilidade dos sistemas de saúde e das empresas.
Saúde integral começa antes da doença
Na abertura do evento, o diretor-superintendente do SESI, Paulo Mol, destacou que uma visão integral da saúde exige acompanhar a trajetória do trabalhador ao longo do tempo, conectando informações, atendimentos e diferentes pontos da rede.
Para ele, essa mudança precisa começar antes do surgimento da doença, com maior investimento em prevenção, acompanhamento e continuidade do cuidado. “A saúde é um dos principais ativos do Serviço Social da Indústria, e nós estamos propondo uma mudança de abordagem, que começa antes da doença, com acompanhamento e prevenção. São ações que têm impacto importante na vida do trabalhador e, também, na redução dos custos em saúde. O SESI abraçou essa causa, trabalhando com a saúde integral e com linhas de cuidado contínuas e coordenadas”, afirmou Mol.
O presidente do Conselho Nacional do SESI, Fausto Junior, ressaltou que a integração entre os diferentes atores do sistema também é fundamental para ampliar o acesso e a qualidade da assistência.
Segundo ele, o SESI pode contribuir para aproximar empresas, saúde suplementar e Sistema Único de Saúde (SUS), ampliando uma atuação que historicamente esteve ligada à segurança e à saúde no trabalho.
“Se as empresas de saúde têm o seu papel suplementar, o SESI, assim como outras entidades, complementa o trabalho do SUS. O desafio é integrar os diferentes atores desse sistema, do poder público ao setor privado, e fortalecer uma atuação complementar capaz de ampliar o cuidado e responder melhor às necessidades da população”, ressaltou.
O superintendente do SESI-SP, Alexandre PFlug, chamou atenção ainda para o impacto econômico da saúde dentro das empresas. Segundo ele, o aumento dos custos reforça a necessidade de colocar o tema entre as prioridades da agenda empresarial. “A gente sabe que os custos da saúde têm aumentado muito. É o segundo maior custo após a folha de pagamento e é algo que a gente precisa começar a tratar com mais carinho e mais cuidado.”
Fragmentação do cuidado aumenta riscos e desperdícios
A discussão sobre a necessidade de transformar atendimentos isolados em uma jornada integrada foi aprofundada pelo economista da saúde André Cezar Medici, que apresentou a palestra “Fragmentação do cuidado e suas consequências”.
Medici traçou um panorama dos efeitos de um modelo em que consultas, exames, internações e tratamentos são realizados como episódios separados, sem que informações e decisões acompanhem o paciente ao longo do tempo.
Segundo o especialista, a falta de conexão entre os serviços cria verdadeiros “cabos soltos” na assistência. Exames e históricos clínicos podem não circular adequadamente, procedimentos acabam sendo repetidos e o paciente precisa, muitas vezes, recontar sua trajetória a cada novo atendimento.
“Nós podemos dizer que o cuidado é fragmentado quando os serviços tratam de episódios isolados de uma doença, sem compartilhar informação, sem ter um plano de ação estruturado. Para melhorar esse cenário, é preciso adotar decisões prévias e coordenadas que assegurem uma responsabilidade longitudinal sobre o histórico do paciente”, explicou.
Mesmo quando cada profissional desempenha corretamente sua função, a ausência de transições adequadas entre uma etapa e outra pode comprometer o acompanhamento.
Entre as consequências estão a duplicidade de procedimentos, perda de informações, diagnósticos e tratamentos tardios, altas hospitalares sem acompanhamento posterior e reinternações que poderiam ser evitadas por meio de uma linha de cuidado coordenada.
“O principal reflexo desse modelo é o desperdício, que vai muito além dos custos financeiros de cada serviço. Ele se manifesta nas falhas de transição entre os atendimentos. Quando o cuidado é fragmentado, o risco clínico aumenta e gera perda de informação, decisões desconectadas e, fundamentalmente, uma transição insegura para o paciente”, alertou Medici.
Impactos também chegam ao ambiente de trabalho
Para o especialista, os efeitos da fragmentação ultrapassam o sistema de saúde e também atingem diretamente as empresas. Doenças que não são adequadamente acompanhadas podem reduzir a capacidade funcional dos trabalhadores, aumentar o absenteísmo e o presenteísmo e provocar afastamentos mais longos e frequentes.
“Uma doença mal controlada reduz a capacidade funcional do trabalho. Ela aumenta o absenteísmo e o presenteísmo — ou seja, a produtividade cai dentro das empresas — e leva a afastamentos cada vez mais longos e frequentes. Com isso, as empresas perdem em desempenho e valor”, finalizou.
Tecnologia pode ajudar a manter o paciente na jornada de cuidado
No painel “Quem coordena cuida melhor”, o pesquisador do Centro de Inovação do SESI Ceará, Cláudio Patrício, apresentou uma iniciativa criada para manter as pessoas conectadas à própria jornada de cuidado.
A estratégia utilizou questionários e mensagens periódicas enviadas pelo WhatsApp para acompanhar mudanças de comportamento e permitir a reclassificação dos participantes ao longo do tempo. “Desenvolvemos uma estratégia para engajar e reter o paciente dentro desse circuito do cuidado. A cada dois dias, havia um disparo de mensagem do WhatsApp para eles responderem a algumas questões. O objetivo era classificar os usuários em tempo real e reclassificar a partir da mudança do comportamento”, explicou Patrício.
A experiência mostra como ferramentas digitais podem ser utilizadas não apenas para transmitir informações, mas também para acompanhar o paciente e identificar mudanças que exigem novas orientações ou intervenções.
Dados ajudam a identificar pontos de ruptura
A executiva pública da Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS), Jacqueline Torres, destacou que as bases de dados da saúde suplementar também podem ser utilizadas para identificar possíveis rupturas na trajetória dos pacientes e orientar medidas de coordenação do cuidado.
Durante o painel, ela apresentou uma análise amostral da ANS segundo a qual 43% dos beneficiários realizaram os exames solicitados, mas não retornaram ao mesmo profissional, enquanto outros 10% fizeram as avaliações médicas e não voltaram a uma consulta.
Jacqueline ressaltou que os números não significam necessariamente que o atendimento tenha sido interrompido em todos os casos. No entanto, os dados representam sinais que podem ser investigados pelas operadoras.
“O primeiro mecanismo para a gente regular um setor de 53 milhões de beneficiários distribuídos em todo o país e atendidos por operadoras de diferentes portes, modalidades e perfis de contratação, é conseguir enxergar qual problema estamos querendo de fato resolver. A partir daí, tornamo-nos capazes de refazer perguntas mais qualificadas aos dados que já temos”, afirmou.
Segundo ela, uma das premissas da coordenação do cuidado é a existência de um profissional de referência, capaz de orientar o fluxo do paciente e acompanhar sua trajetória.
Nesse contexto, entender o que acontece depois da realização de um exame pode ajudar a identificar falhas na continuidade da assistência. “Se eu tenho uma quantidade de exames realizados dentro da operadora e eu não sei o que está acontecendo com esse resultado, não tenho um retorno, não tenho um encaminhamento adequado, isso já é um sinal de fragmentação”, destacou.
A experiência do setor empresarial também fez parte do debate. O médico da Motiva, Leonardo Piovesan, apresentou a estratégia adotada pela companhia em parceria com operadoras de saúde para acompanhar os trabalhadores antes, durante e depois de eventos assistenciais.
A atuação inclui o acompanhamento de internações, a identificação de oportunidades de desospitalização, a avaliação de casos que podem retornar à atenção primária e o monitoramento posterior.
A proposta é evitar que o paciente seja “perdido” na transição entre os diferentes níveis de atenção e garantir que o cuidado continue após uma internação ou outro evento de maior complexidade. “Uma vez que esse paciente está no cuidado terciário, o que eu garanto ali dentro? Que ele volte para a nossa atenção primária”, afirmou Piovesan.
O debate apresentado no Conecta Saúde reforçou que a transformação da assistência passa menos pela criação de novos pontos isolados de atendimento e mais pela capacidade de conectar os serviços que já existem.
Ao integrar dados, profissionais, empresas, operadoras e o poder público, a proposta é construir uma jornada em que o paciente não precise começar do zero a cada atendimento — e em que prevenção, acompanhamento e continuidade façam parte do cuidado desde o início.
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