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Marcador inédito usa tomografia para refinar prognóstico no câncer de estômago (Fotos: Vinícios Bassete)
Índice obtido por tomografia pode ajudar a separar pacientes com maior risco de pior evolução da doença
Um novo marcador identificado por pesquisadores da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) pode contribuir para definir o prognóstico de pacientes com câncer do estômago, o quinto tipo de tumor mais comum no mundo.
Pesquisadores da Unicamp identificaram um indicador com potencial para ajudar a prever a evolução de pacientes com câncer de estômago, o quinto tipo de tumor mais comum no mundo. Batizado de VMD, o marcador combina informações da gordura visceral e do músculo obtidas em tomografias computadorizadas já realizadas na rotina clínica.
A proposta é complementar o estadiamento tradicional, que hoje se concentra principalmente nas características do tumor. Segundo os autores, olhar também para a condição do paciente pode ajudar a explicar por que pessoas com o mesmo estágio da doença evoluem de formas diferentes.
O estudo foi conduzido no Departamento de Radiologia e Oncologia da Faculdade de Ciências Médicas da Unicamp, em parceria com o Instituto de Física Gleb Wataghin. Ao todo, os pesquisadores analisaram dados de 461 pacientes atendidos ao longo de quase dez anos, usando exames de imagem e informações clínicas e laboratoriais.
Para criar o marcador, a equipe recorreu a técnicas de inteligência artificial e machine learning. Em vez de examinar uma variável isoladamente, os pesquisadores testaram diferentes combinações até encontrar uma fórmula capaz de separar melhor os grupos com maior e menor risco de pior desfecho.
Nos resultados, pacientes com valores mais altos de VMD apresentaram pior prognóstico, tanto em sobrevida global quanto em sobrevida livre de doença. A diferença foi expressiva: o grupo com piores indicadores teve sobrevida mediana de 13,8 meses, enquanto entre os pacientes com valores mais baixos o tempo mediano chegou a 58,5 meses.
De acordo com os autores, a radiodensidade elevada na gordura pode sinalizar inflamação e pior evolução, enquanto no músculo a queda da radiodensidade também está associada a desfechos desfavoráveis. A diferença entre essas duas medidas ajuda a captar um perfil corporal mais amplo do paciente, com sinais metabólicos e inflamatórios relevantes para o risco clínico.
Na prática, o VMD pode futuramente auxiliar a estratificação terapêutica em câncer gástrico. A expectativa dos pesquisadores é que o marcador ajude a identificar quais pacientes teriam mais benefício com quimioterapia e quais poderiam ser poupados de tratamentos mais agressivos após a cirurgia.
Como o índice é calculado a partir de exames que já fazem parte da rotina, ele pode acrescentar informação clínica sem exigir novos procedimentos. Ainda assim, os autores ressaltam que o estudo é retrospectivo e precisa ser validado em outras populações, preferencialmente em pesquisas prospectivas, multicêntricas e com maior número de pacientes.
Próximos passos da pesquisa
A equipe também quer entender se a condição corporal observada pelo VMD pode ser modificada ao longo do tratamento, inclusive com apoio nutricional. Por enquanto, essa relação ainda não foi demonstrada.
Mesmo em fase inicial, o trabalho avança na direção da medicina de precisão, ao considerar características individuais do paciente na avaliação da doença. Os pesquisadores já testam a abordagem em outros tipos de câncer, e os primeiros resultados indicam que o caminho pode ser promissor.
como indicador: neste caso, uma medida capaz de apontar quais pacientes teriam mais risco de apresentar evolução desfavorável da doença. A partir da análise de imagens de tomografia computadorizada, exame já realizado na rotina desses pacientes, o grupo identificou uma variável que combina dados da radiodensidade da gordura visceral e do músculo.
O estudo, realizado no Departamento de Radiologia e Oncologia da Faculdade de Ciências Médicas (FCM) da Unicamp, em parceria com o Instituto de Física Gleb Wataghin (IFGW) da mesma universidade, teve apoio financeiro da FAPESP (projetos 21/10265-8, 22/06239-4 e 23/13749-1).
A pesquisa concluiu que esse novo marcador – chamado VMD, sigla de Visceral-Muscle Density difference – poderá, no futuro, complementar o estadiamento – processo utilizado para determinar a localização, a gravidade e a extensão de uma doença, especialmente o câncer – tanto do tumor quanto do paciente e, com isso, abrir caminho para uma abordagem mais personalizada no tratamento. Os resultados foram publicados na revista científica Clinical Nutrition Espen.
A ideia, segundo os pesquisadores, surgiu a partir de uma mudança de perspectiva. Em vez de olhar apenas para o estadiamento do tumor, como é feito atualmente para definir o prognóstico, o grupo decidiu observar também o paciente. “Hoje, o tratamento do câncer ainda é muito centrado no tumor. A nossa proposta é olhar para o paciente como um todo. Essa é uma linha de pesquisa que o professor José Barreto [Campello Carvalheira] desenvolve há anos. Foi isso que me convenceu a participar: não basta tratar a doença, é preciso tratar o paciente”, resume Jun Takahashi, professor titular do IFGW-Unicamp e um dos coorientadores do estudo.
A abordagem levou o grupo a investigar a composição corporal, ou seja, como estão distribuídos a gordura visceral e os músculos no organismo, e como isso se relaciona com a evolução do paciente com câncer. Estudos anteriores da mesma equipe já indicavam que tanto a gordura quanto o músculo, isoladamente, poderiam influenciar o prognóstico. Mas ainda faltava entender se essas informações juntas poderiam dizer algo mais.
Para isso, foram analisados dados de 461 pacientes com câncer gástrico atendidos na Unicamp ao longo de quase dez anos. A partir das imagens das tomografias realizadas na rotina, os pesquisadores avaliaram as características da gordura e do músculo no corpo desses pacientes. No estudo, o recorte foi a musculatura da terceira vértebra lombar, região abdominal, o que inclui o músculo psoas, o retroabdominal e o paravertebral. Segundo os pesquisadores, isso reflete a musculatura como um todo.
Com essas informações, testaram diferentes combinações até identificar um indicador capaz de separar melhor os grupos com maior e menor risco de evolução da doença. Em seguida, compararam a sobrevida entre esses grupos para entender como esse novo marcador se relacionaria com o prognóstico.
Foi aí que entrou o marcador VMD. “A gente uniu duas informações que já sabíamos que eram importantes: a radiodensidade do tecido adiposo e a radiodensidade do músculo”, explica Maria Carolina Santos Mendes, nutricionista do programa de mestrado em oncologia na FCM-Unicamp e coorientadora do estudo.
Mas o que isso significa, na prática? A radiodensidade é uma medida usada na tomografia que indica o quanto os tecidos atenuam (ou bloqueiam) os raios X, determinando como eles aparecem no exame, do mais escuro ao mais claro, dentro de uma escala de tons. Alterações nesses padrões podem indicar mudanças inflamatórias e metabólicas na gordura e no músculo promovidas pelo câncer.
Nos resultados, os pesquisadores observaram uma diferença significativa na evolução dos pacientes de acordo com o VMD. Aqueles com valores mais altos foram considerados de maior risco e apresentaram pior prognóstico, tanto em termos de sobrevida global quanto de sobrevida livre de doença. Na prática, isso significou uma sobrevida mediana de 13,8 meses no grupo com piores indicadores, em comparação com 58,5 meses entre os pacientes com valores de VMD mais baixos.
“No tecido adiposo, valores mais altos de radiodensidade estão associados a pior prognóstico e podem indicar inflamação. Já no músculo, ocorre o oposto: quanto menor a radiodensidade, pior o prognóstico. Isso evidencia o potencial do marcador para distinguir diferentes perfis de evolução da doença”, explica Mendes. “Essa diferença entre a radiodensidade da gordura e do músculo acaba captando um fenótipo integrado do paciente, em que não só características associadas ao metabolismo emergem, mas também um estado inflamatório associado a maior risco clínico”, ressalta o professor titular de oncologia clínica da FCM José Barreto Campello Carvalheira, um dos líderes do estudo.
Para chegar à construção desse marcador, a equipe contou com o uso de técnicas de inteligência artificial. Em vez de analisar manualmente uma variável de cada vez, como tradicionalmente se faz, os pesquisadores utilizaram machine learning para avaliar grandes volumes de dados, incluindo os exames de imagem e as informações clínicas e laboratoriais dos pacientes do estudo. “Eu ensinei a máquina a olhar na direção que os especialistas já olhavam, mas com mais velocidade e escala. A tecnologia permitiu testar diversas combinações até chegar à fórmula que melhor separava os pacientes com pior prognóstico”, explica Jun Takahashi.
Além disso, houve um outro cuidado importante, alertado pela física médica do IFGW-Unicamp Maria Emília Seren Takahashi: minimizar possíveis variações dos próprios exames. Como a tomografia pode sofrer pequenas diferenças de calibração entre máquinas, os pesquisadores optaram por usar a diferença entre gordura e músculo, o que ajuda a “cancelar” essas variações técnicas e tornar o marcador mais preciso.
Do ponto de vista clínico, os pesquisadores afirmam que o VMD tem potencial de orientar e até mudar condutas. Hoje em dia, o tratamento do câncer gástrico é guiado principalmente pelo estadiamento da doença, que considera características do tumor, como tamanho e presença de metástases. Mas pacientes com o mesmo estágio podem evoluir de formas muito diferentes. “O objetivo dessa linha de pesquisa, e desse trabalho em particular, é ampliar o estadiamento para além do tumor, incorporando a avaliação do próprio paciente”, reitera o professor Barreto.
Segundo ele, no futuro, o VMD poderá ajudar na estratificação terapêutica, permitindo identificar quais pacientes realmente se beneficiariam de quimioterapia e quais poderiam ser poupados de um tratamento mais tóxico e agressivo depois da cirurgia. “Esse marcador funciona quase como um espelho da condição metabólica e inflamatória do paciente”, diz.
Apesar dos resultados promissores, os próprios autores ressaltam que o estudo é retrospectivo e ainda necessita de validação externa em diferentes populações, preferencialmente em estudos prospectivos, multicêntricos e com mais pacientes. Só então será possível confirmar se o marcador poderá, de fato, orientar decisões clínicas. Estudo retrospectivo é aquele em que os pesquisadores analisam dados já existentes de pacientes tratados anteriormente, em vez de acompanhar novos pacientes ao longo do tempo.
Os pesquisadores também não sabem se esse perfil corporal pode ser modificado ao longo do tratamento. “A gente acredita que a terapia nutricional pode ajudar a melhorar a condição do paciente, mas isso não foi avaliado no estudo. Ainda não sabemos se é possível mudar esse perfil e, com isso, impactar o prognóstico. Temos a pergunta, mas ainda não a resposta. Isso ainda precisa ser investigado”, afirma Mendes.
Mesmo assim, o estudo avança em uma direção cada vez mais presente na oncologia: a medicina de precisão, que incorpora características individuais do paciente na avaliação da doença. Como o marcador é obtido a partir de tomografias que já fazem parte da rotina, ele aponta para a possibilidade de ampliar a informação clínica disponível sem exigir novos exames. Os pesquisadores deram início aos próximos passos e estão testando o novo marcador em outros tipos de câncer. Os primeiros resultados já indicam que a abordagem pode seguir o mesmo caminho.
O artigo Determination of a new gastric cancer mortality predictor based on body composition radiodensity variables pode ser lido no link
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