Documentos foram analisados pelo gabinete parlamentar do deputado Mario Motta (PSD)

A interdição total da Ponte Anita Garibaldi, na BR-101, em Laguna, tem origem em um problema estrutural identificado pela primeira vez há quase quatro anos na mesma região da estrutura. A constatação consta em documentos obtidos pelo gabinete do deputado estadual Mário Motta (PSD) junto à concessionária Via Costeira e à Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT).

Inaugurada em 2015, a ponte passou a ser administrada pela Via Costeira em 2020, quando a concessionária assumiu o trecho sul da BR-101 por meio do Contrato de Concessão nº 01/2020. Antes disso, a responsabilidade era do Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (DNIT), órgão responsável pela construção da obra.

De acordo com os documentos analisados pelo gabinete parlamentar, o primeiro alerta sobre um problema estrutural relevante surgiu em outubro de 2022, durante uma inspeção de rotina realizada pela concessionária.

Em correspondência encaminhada ao DNIT e à ANTT em 10 de outubro daquele ano, a Via Costeira informou ter identificado deficiências estruturais relacionadas aos esforços de torção no pilar 35 da ponte. As inspeções apontaram aberturas entre aduelas em diferentes trechos do vão central e lateral da estrutura, além do rompimento completo de quatro barras de ligação da laje inferior entre as aduelas 6 e 7.

No documento, a concessionária avaliou que o cenário apresentava risco de colapso estrutural e indicou como provável causa um vício oculto de construção. Como medida emergencial, o tráfego foi reduzido a uma faixa no sentido Norte e os veículos pesados passaram a ser desviados para a Ponte de Cabeçuda.

A solução adotada na época consistiu na instalação de cabos adicionais de protensão no interior da estrutura. O reforço foi concluído em 18 de outubro de 2022, permitindo a retomada do tráfego normal.

Segundo os documentos, a concessionária também deu continuidade a estudos complementares, incluindo a instalação de novos conjuntos de protensão e a programação de uma prova de carga para janeiro de 2023. Paralelamente, foi iniciada uma análise estrutural global da ponte, acompanhada da solicitação ao DNIT de documentos da fase de construção, como diários de obra e registros técnicos dos cabos estaiados.

Novo alerta em 2026

Quatro anos depois, uma nova ocorrência voltou a acender o alerta sobre a segurança da estrutura.

Ata de reunião realizada em 6 de julho de 2026 entre a ANTT e a concessionária — atualmente integrante do grupo Motiva — registra a identificação de uma abertura de aproximadamente 2,5 milímetros entre aduelas no vão lateral do mastro 36, em local diferente do ponto afetado em 2022.

Diante da situação, a concessionária estudava restringir a circulação de cargas especiais com Autorização Especial de Trânsito (AET) superiores a 10 toneladas por eixo, enquanto prosseguiam as investigações técnicas.

O mesmo documento revela que a empresa enfrentava dificuldades para localizar registros completos da construção da ponte, incluindo informações sobre o fechamento do tabuleiro e os ajustes de força realizados nos cabos estaiados durante a execução da obra. Segundo a ata, a busca por esse material ocorre desde 2022 e já apontou divergências entre projetos e registros disponíveis. A ANTT comprometeu-se a buscar apoio do DNIT para localizar o acervo técnico.

Três dias após a reunião, em carta encaminhada à ANTT em 9 de julho de 2026, a concessionária informou ter recebido os primeiros resultados de ensaios técnicos em andamento. O relatório apontou o rompimento de cabos de protensão na junta entre as aduelas A6 e A7 do vão central, junto ao apoio 35 — exatamente o mesmo ponto que havia recebido reforço estrutural em 2022.

Ainda conforme o documento, a análise indicou que a capacidade resistente da seção comprometida já não atendia integralmente às margens de segurança previstas pelas normas técnicas para as cargas de projeto.

Com base na recomendação de uma consultoria especializada, a concessionária determinou a interdição total da ponte a partir das 19h do dia 9 de julho de 2026, desviando o tráfego para a Ponte de Cabeçuda. As obras emergenciais tiveram início no dia seguinte, com previsão inicial de dez dias para a liberação parcial do trânsito.

Pedido de esclarecimentos

Após analisar a documentação, o deputado Mário Motta afirmou que buscará esclarecimentos sobre a sequência de eventos que culminou na interdição da ponte.

Entre os questionamentos levantados pelo parlamentar estão o intervalo de quase quatro anos entre a identificação do risco estrutural, em 2022, e a falha que levou ao fechamento total da via em 2026, além das dificuldades relatadas pela concessionária para reunir a documentação técnica completa da obra.

“O ponto mais grave é que o catarinense só ficou sabendo da situação quando a ponte já estava fechada. Alguém precisa explicar o que foi feito desde 2022. Não podemos admitir que uma obra de quase R$ 800 milhões apresente problemas tão graves em tão pouco tempo. Estamos apurando os fatos e reunindo elementos que possam subsidiar encaminhamentos aos órgãos federais de controle. É inconcebível que uma rodovia vital para o desenvolvimento do estado seja tratada com tamanho descaso”, afirmou o deputado.

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