Levantamento nacional indica adoção recorde da inteligência artificial generativa na advocacia

O uso da inteligência artificial generativa pela advocacia brasileira deu um salto expressivo em apenas um ano. Segundo o Relatório sobre o Impacto da IA no Direito, edição 2026 — levantamento do Jusbrasil em parceria com seccionais da OAB —, o percentual de profissionais que utilizam essas ferramentas ao menos uma vez por semana saltou de 55% para 77% entre 2025 e 2026. A pesquisa aponta a elaboração de peças processuais como o uso mais comum, citado por 76% dos entrevistados, seguido de pesquisa de jurisprudência (59%), redação de pareceres (58%) e revisão de contratos (56%).

O crescimento acelerado também reforça a importância do uso responsável da tecnologia, um risco que a própria classe já reconhece, no mesmo levantamento do Jusbrasil, quase metade dos entrevistados aponta a falta de revisão humana como uma das principais preocupações no uso da tecnologia.

Por outro lado, os ganhos também aparecem na rotina, entre os profissionais que utilizam IA, 84% relatam economia de tempo, e a maioria observa melhora na qualidade técnica do trabalho entregue. Menos tempo em tarefas repetitivas abre espaço para decisões estratégicas e, segundo relatos da própria categoria, tem reflexo direto no bem-estar profissional.

“A inteligência artificial já é uma realidade na rotina da advocacia catarinense, e a OAB/SC entende que seu papel é qualificar os profissionais para o uso. É fundamental estar preparado para utilizar a ferramenta, valendo-se dela com ética, responsabilidade e o olhar crítico que somente a formação técnica do advogado pode garantir. A Ordem oferece à categoria condições para que o avanço tecnológico seja acompanhado de segurança e qualidade na prestação jurisdicional. É isso que orienta nosso investimento em capacitação”, afirma Juliano Mandelli, presidente da OAB Santa Catarina.

Prioridade nacional

O tema também já é prioridade nacional. Em novembro de 2024, o Conselho Federal da OAB aprovou a Recomendação nº 001/2024, primeiro documento oficial da entidade sobre uso ético da inteligência artificial generativa na advocacia, com diretrizes sobre legislação aplicável, confidencialidade, prática jurídica ética e transparência, inclusive a exigência de que o cliente seja informado quando IA for utilizada na prestação do serviço. Em junho de 2026, o Conselho foi além e lançou o Plano Nacional de Integração de Inteligência Artificial na Advocacia, elevando o tema à política institucional estruturada em cinco eixos, entre eles a capacitação da categoria.

É esse cenário, nacional e catarinense, que norteia a atuação da OAB Santa Catarina. Pela Escola Superior de Advocacia (ESA), a seccional promoveu 21 cursos voltados à inteligência artificial em 2025, somando mais de 2 mil advogados e advogadas capacitados. Em 2026, o número de inscritos já ultrapassa 830 — ritmo que, mantido, deve superar o resultado do ano anterior. A capacitação também tem chegado ao interior do estado, a ESA tem levado cursos sobre o tema a diferentes subseções, como São Miguel do Oeste, Pinhalzinho, Maravilha e Concórdia, ampliando o acesso à formação para além da Capital.

Erros e acertos no uso da IA

Para entender como a capacitação tem sido conduzida na prática, a reportagem ouviu Leonardo Durand, diretor de Tecnologia e Inteligência Artificial da ESA. Segundo ele, o principal risco no uso da IA pela advocacia não é técnico, mas de expectativa: “Quando o assunto é inteligência artificial, somos todos jovens advogados. Estamos no começo da curva, há colegas fazendo usos muito interessantes e avançados das ferramentas e há colegas que começaram a utilizar um modelo de linguagem há menos de uma semana.” Para ele, o erro mais frequente é tratar a IA como algo capaz de adivinhar o que o profissional quer, e não como uma tecnologia que exige complementariedade e clareza de onde ela acerta e onde falha.

Durand também destaca que o primeiro obstáculo de quem está começando não é tecnológico, mas comunicacional. “Utilizar IA é, sobretudo, aprender a solicitar, saber qual comando digitar. Costumo dizer que existe um filme que só passa na nossa cabeça e, quando escrevemos um prompt, fazemos isso de forma incompleta, presumindo coisas que só nós sabemos e queremos. O LLM não tem acesso a esse filme. Na ESA buscamos justamente dar um caminho facilitado do uso das ferramentas generativas, mostrar com clareza esse filme para todos os envolvidos no processo de criação compartilhada com a IA”, explica.

O diretor-geral da ESA, Ezair José Meurer Jr., comenta que a escola tem optado por uma metodologia mais direta: “Temos priorizado na ESA uma abordagem prática, para uso iniciante e intermediário, com conhecimentos que fazem sentido na rotina jurídica, ao invés de nos concentrarmos na teoria sobre Inteligência Artificial, entendemos que assim o advogado sai preparado para utilizar a ferramenta no dia a dia”, resume.

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