Créditos de biodiversidade ganham espaço no ESG

logo RCN

Ultimas :

19/08/2026 17:03
Créditos de biodiversidade

Créditos de biodiversidade ganham espaço no ESG

Por Jornalismo

Fonte: FIESC

 Publicado 19/08/2026 17:03  – Atualizado 19/08/2026 17:03

Paisagem do município de Alfredo Wagner, em Santa Catarina.
  • Paisagem do município de Alfredo Wagner, em Santa Catarina. (Fotos: Adobestock)

Novo mercado pode remunerar conservação, restaurar ecossistemas e criar oportunidades para empresas e proprietários rurais

O carbono ganhou protagonismo na agenda ESG das empresas ao longo da última década, impulsionado pela necessidade de reduzir as emissões de gases de efeito estufa e enfrentar as mudanças climáticas. Agora, uma nova classe de ativos começa a conquistar espaço no mercado global: os créditos de biodiversidade.

A proposta é atribuir valor econômico à conservação e à recuperação dos ecossistemas. A lógica é semelhante à dos créditos de carbono, mas com um escopo mais amplo, que considera não apenas emissões, mas também os serviços prestados pela natureza.

“São créditos que valorizam financeiramente o que antes não tinha preço, a biodiversidade conservada e restaurada”, afirma José Lourival Magri, presidente do Conselho de Meio Ambiente e Sustentabilidade da FIESC. “Eles seguem a mesma lógica dos créditos de carbono, mas são mais abrangentes porque envolvem não somente emissões, mas todo o conjunto de serviços ecossistêmicos”, explica.

Natureza como infraestrutura da economia

Em termos biológicos, biodiversidade é a variedade de formas de vida e das relações estabelecidas entre elas. Do ponto de vista econômico, porém, ela pode ser entendida como uma espécie de infraestrutura natural que sustenta a atividade econômica e a própria vida humana.

Florestas, rios, solos, oceanos e outros ecossistemas fornecem água limpa, alimentos, matérias-primas, polinização, controle de pragas, estabilidade climática e princípios ativos utilizados pela indústria farmacêutica, além de favorecer atividades como turismo e recreação.

É justamente a percepção de que esses serviços possuem valor econômico que sustenta a criação de um mercado capaz de remunerar projetos de conservação e restauração.

O desenvolvimento dos créditos de biodiversidade ocorre em um cenário internacional de maior atenção à preservação dos ecossistemas. Em 2022, países adotaram o Global Biodiversity Framework (GBF), acordo internacional que estabelece metas para conter e reverter a perda de biodiversidade.

Entre os objetivos estão a redução dos impactos provocados pela atividade empresarial, o uso de métricas para mensurar esses impactos e a ampliação do financiamento destinado à conservação, inclusive com mecanismos capazes de atrair recursos privados.

“Estruturar a biodiversidade como um ativo econômico mensurável, que dialogue com o mundo empresarial e financeiro, é condição essencial para o desenvolvimento de um mercado funcional de créditos”, afirmou Regiane Borsato, diretora executiva do Instituto Life, durante seminário sobre o tema promovido pela FIESC em abril.

O Instituto Life, com sede em Curitiba, atua na certificação de iniciativas relacionadas à conservação da biodiversidade.

Como funcionam os créditos

A lógica começa com projetos voltados à conservação ou restauração de áreas naturais, que podem estar em propriedades privadas, reservas ou unidades de conservação públicas.

Essas iniciativas passam por avaliações técnicas e indicadores destinados a medir os resultados efetivamente obtidos para a biodiversidade. A partir dos resultados verificados, os projetos podem gerar créditos que, posteriormente, são negociados no mercado.

Empresas interessadas podem adquirir esses créditos como parte de suas estratégias ambientais, para lidar com impactos, fortalecer compromissos de sustentabilidade ou atender a demandas de mercados e consumidores.

O modelo também abre uma possibilidade para que empresas e proprietários de áreas naturais se tornem geradores de créditos, transformando investimentos em conservação em uma potencial fonte de receita.

O Brasil reúne condições para ocupar um espaço relevante nesse mercado por concentrar uma das maiores diversidades biológicas do planeta. O país possui seis biomas e enfrenta, ao mesmo tempo, grandes desafios relacionados à conservação.

Em Santa Catarina, uma das iniciativas em desenvolvimento é o Programa de Incentivo à Produção da Diversidade Catarinense, apresentado pelo Banco Regional de Desenvolvimento do Extremo Sul (BRDE) durante o seminário realizado pela FIESC.

A proposta é oferecer apoio técnico e recursos para propriedades rurais interessadas em desenvolver projetos capazes de gerar créditos de biodiversidade e, posteriormente, conectá-las a empresas interessadas na aquisição desses ativos.

O perfil fundiário catarinense pode favorecer esse tipo de iniciativa, segundo especialistas envolvidos no debate. A presença de pequenas propriedades, recursos hídricos e áreas com limitações para determinadas atividades agropecuárias pode abrir espaço para projetos de conservação remunerada. “Além disso, projetos costeiros e marinhos no Estado têm grande potencial de atrair investidores”, afirma Magri.

Créditos podem ajudar na regularização de parques

Outra possibilidade apontada é a utilização dos recursos gerados pelos créditos para apoiar a consolidação de unidades de conservação estaduais.

Em Santa Catarina, alguns parques possuem áreas privadas ainda não indenizadas, situação que pode dificultar a gestão e a conservação desses territórios. Segundo Magri, a geração de créditos poderia criar uma fonte de recursos para contribuir com processos de indenização e regularização fundiária.

Para as empresas compradoras, a aquisição dos créditos também pode trazer benefícios estratégicos, especialmente para setores com forte exposição a mercados internacionais e consumidores atentos às práticas ambientais.

Indústrias de alimentos, têxteis e metalmecânicas, por exemplo, podem utilizar iniciativas de biodiversidade para fortalecer suas estratégias ambientais, administrar riscos e responder a exigências de mercados consumidores.

Um exemplo catarinense de geração de créditos de biodiversidade é o da C-Pack, fabricante de embalagens para cosméticos com unidades em São José, na Grande Florianópolis, e em Portugal. A empresa fornece para grandes marcas globais e desenvolve, desde 2019, o programa C-Pack Conserva no Parque Estadual da Serra do Tabuleiro.

A iniciativa começou antes da consolidação do conceito de créditos de biodiversidade e tinha como foco a recuperação ambiental de áreas do parque.

Um dos principais problemas identificados era a expansão do pinus, espécie exótica introduzida na região no passado e que avançou sobre áreas de restinga. O programa passou a realizar a retirada das árvores e o manejo das áreas seguindo critérios técnicos definidos pelo Instituto do Meio Ambiente de Santa Catarina (IMA).

O projeto também incorporou ações de educação ambiental e a instalação de um meliponário com abelhas nativas. A iniciativa contribuiu para a recuperação da vegetação e para o retorno de espécies da fauna e da flora.

Com a evolução das metodologias de mensuração da biodiversidade, o projeto passou a ser elegível para certificação pelo Instituto Life. A iniciativa inclui acompanhamento técnico da evolução ambiental, que serve de base para a geração dos créditos.

Mais de 140 mil créditos já foram certificados. A estratégia da empresa, neste momento, é manter os créditos acumulados até que o mercado esteja mais consolidado.

“A ideia é aplicar o resultado da venda em novos projetos no próprio parque, onde há uma enorme demanda reprimida por investimentos ambientais”, afirma José Maurício Coelho, CEO da C-Pack.

Uma nova frente para o ESG

Ainda em fase de estruturação, o mercado de créditos de biodiversidade apresenta desafios como a definição de metodologias, critérios de certificação, padronização e liquidez.

Em alguns países, principalmente na Europa e na Austrália, o mercado já conta com metodologias e registros mais desenvolvidos. No Brasil, a atividade ainda busca maior organização e segurança regulatória.

Para Santa Catarina, entretanto, a combinação de diversidade ambiental, propriedades rurais, áreas de conservação e uma indústria diversificada cria um cenário de oportunidades.

Se o mercado avançar, os créditos de biodiversidade poderão aproximar dois universos que durante muito tempo foram tratados separadamente: a conservação da natureza e a geração de valor econômico. Nesse modelo, preservar e recuperar ecossistemas deixa de ser apenas uma obrigação ou um custo e passa também a representar uma possível fonte de investimentos, negócios e receita.

Siga-nos no Google notícias

Google News
  • Laelia purpurata, araponga e imbuia, símbolos da biodiversidade catarinense. (Adobestock)

  • Parque Estadual da Serra do Tabuleiro, na região da Grande Florianópolis. (Adobestock)

Tags

  • biodiversidade
  • conservação
  • créditos de biodiversidade
  • Economia Verde
  • ESG
  • fiesc
  • mercado ambiental
  • Restauração
  • Santa Catarina
  • Sustentabilidade

Mais lidas