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José Fernando Faraco, primeiro presidente da ACATE (Fotos: ASCOM)
Ainda nos anos 1980, primeiros empreendedores acreditavam que, juntos, podiam ampliar a visão dos governantes e da população sobre o que a tecnologia seria no futuro
Florianópolis, 1º abril de 1986 – Uma dezena de empreendedores de um setor novo, ainda pouco conhecido pela população de cerca de 4 milhões de residentes em Santa Catarina, reunia-se pela primeira vez em uma casa na Rua São Jorge, no Centro da capital catarinense – onde anos antes, em 1977, o engenheiro de telecomunicações José Fernando Xavier Faraco fundara a Dígitro, junto a dois sócios. Liderados por Faraco, os pioneiros da tecnologia catarinense se juntaram para pleitear visibilidade e apoio do poder público para o segmento que acreditavam que se consolidaria no futuro.
“Você só conseguia acreditar porque você estava vivendo aquilo, vivendo aquele ambiente e vendo o progresso da tecnologia, que era extremamente dinâmico. Era uma época que se acreditava sozinho e os empresários da época fizeram isso”, afirma Faraco sobre o período em que existiam, conforme levantamento do Observatório ACATE, em torno de 80 empresas de tecnologia em todo o estado.
Naquele encontro nasceu a ACATE, à época chamada de Associação Catarinense de Telemática e Eletrônica. Os empreendedores que viam dificuldades em suas articulações políticas individuais, passaram a vislumbrar a força do coletivo que constituía a entidade. Primeiro Presidente da história da ACATE, Faraco conta sobre os desafios do grupo: “Nosso objetivo era tentar convencer autoridades de governo e as pessoas de maneira geral que os chips e a eletrônica digital eram o futuro, que isso era importante, que nós precisávamos de apoio e de linhas do governo apoiando essas iniciativas.”
A união do setor também buscava mostrar que os serviços realizados pelas empresas podiam participar da economia de uma forma expressiva e sustentável no estado, por exemplo, tornando a capital catarinense um polo tecnológico. Até então, Florianópolis era reconhecida em Santa Catarina pelas oportunidades no funcionalismo público, que atraíam a maioria dos estudantes de engenharia, inclusive, para instituições ligadas a atividades tecnológicas como a Eletrosul, Telesc, Celesc e Prodasc.
Para incentivar o desenvolvimento de um setor privado incipiente na capital catarinense, fazia-se necessário fornecer recursos e estrutura aos negócios. A atuação da ACATE tem início com a administração do Condomínio Industrial de Informática (CII), localizado na Rua Lauro Linhares, no bairro da Trindade, em Florianópolis – espaço que abria suas portas para que as empresas de tecnologia pioneiras na cidade instalassem suas operações.
“Quando nós formamos a ACATE, uma das primeiras atividades foi prover às empresas alguns meios de trabalho um pouco melhores do que elas tinham. Elas eram muito pobres, eram iniciantes. Por exemplo, nenhuma delas tinha um computador help desk. As mais graduadas tinham uma máquina de escrever, uma secretária e uma escrivaninha”, conta Faraco sobre a realidade da época.
O ex-presidente da ACATE também lembra que alguns dos objetos utilizados pelas empresas no CII foram arrematados no leilão do espólio de um banco falido, incluindo lotes de máquinas de escrever, escrivaninhas, cadeiras, mesas e bebedouros. “Era tudo aquilo que faltava para as empresas terem cara de empresa. Carregamos pessoalmente dois caminhões desses materiais no calçadão da Felipe Schmidt, à noite.”
Faraco ainda recorda sobre as decisões que os empreendedores tinham de tomar em meio às dificuldades. “Precisávamos comprar um acionador de disco flexível de oito kilobytes. O que hoje consome só oito kilobytes? Nem uma foto de celular, nem um documento. Era um acionador pesado, enorme, caríssimo e fabricado por só uma empresa no Brasil. A decisão de comprar ou não era uma decisão de passar a noite em claro porque você podia ficar sem dinheiro para pagar os poucos funcionários que tinha”. Ele acrescenta que a ACATE apoiou os negócios desde aquela época e se tornou referência: “Nós saímos desse grau e, hoje, temos uma instituição respeitada mundialmente, de porte e que criou consistência. É uma coisa bacana de se ver e muito importante. Não imaginava que chegaria a tudo isso. Fizemos o negócio para nos confortar, nos ajudar e nos transformar em alguém. Mas a ACATE foi muito além.”
Juntos somos mais fortes
Um dos empreendedores impactados pela ACATE em 1986 foi Silvio Kotujansky, que havia se mudado de São Paulo para Florianópolis em busca de qualidade de vida. Formado em Ciências da Computação pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), Kotujansky trabalhara no departamento de Engenharia Mecânica da instituição, onde teve seu primeiro contato com o empreendedorismo inovador. “Desenvolvíamos sistemas para automação industrial. Eu coordenei vários projetos até me formar em 1986, ano da fundação da ACATE. Aquele movimento de empreendedorismo inovador que estava acontecendo na universidade, na minha visão, foi o ‘Big Bang’ do ecossistema de Florianópolis”.
Nesse movimento de criação de empresas inovadoras, Kotujansky também começou a empreender. “Eram poucos empreendedores naquela época e não tínhamos muita noção do quão difícil era a nossa vida, porque a gente não sabia o que podia ser diferente. Com isso, fomos aproveitando coisas maravilhosas que o estado de SC tem, que é um alinhamento de todos os atores e um planejamento de futuro que mudou tudo.”
Ainda no final da década de 1980 e início dos anos 1990, a articulação da ACATE e iniciativas de outras instituições como o Governo do Estado de SC e do Sebrae concediam apoio aos negócios. “Começamos a perceber a importância de ter projetos estruturantes por trás dos empreendedores e para alavancar empresas Começamos a perceber que juntos nós éramos maiores, e isso foi permeando vários atores”, finaliza Kotujansky.
Hoje, a ACATE reúne cerca de 1.850 associados distribuídos em oito polos de inovação em Santa Catarina e atua como uma das principais articuladoras do setor no estado. A entidade conecta empresas, iniciativas e mercados por meio de programas como o MIDIHUB, o LinkLab e as Verticais de Negócios, além de apoiar a internacionalização de empresas em diversos países.
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