Publicação reúne oito segmentos estratégicos e aponta tecnologias, competências e desafios para a indústria de defesa brasileira

A Confederação Nacional da Indústria (CNI), a Agência Brasileira de Desenvolvimento Industrial (ABDI) e a Fundação Instituto de Administração (FIA), da Universidade de São Paulo (USP), lançaram, na quarta-feira (19), os Cadernos Prospectivos da Base Industrial de Defesa (BID).

A publicação reúne oito estudos que projetam as principais transformações tecnológicas, organizacionais e ocupacionais que devem impactar segmentos estratégicos da indústria de defesa nos próximos anos. O material também identifica as competências que serão necessárias aos profissionais desse novo cenário e apresenta recomendações para aproximar a formação de pessoas das demandas futuras da indústria.

Os estudos contemplam oito segmentos:

Aeroespacial;
Munições, propelentes, explosivos, mísseis e foguetes;
Armas e equipamentos de controle de tiro;
Plataformas militares marítimas e fluviais;
Plataformas veiculares militares terrestres;
Defesa cibernética;
Sistemas C4ISTAR — redes integradas de comando, controle, comunicações, computadores, inteligência, vigilância e reconhecimento;
Uniformes militares.

A partir de um modelo de prospectiva industrial que combina estimativas de difusão tecnológica e organizacional com análises de impactos sobre as ocupações, os cadernos identificam mais de 120 tecnologias emergentes e apontam os novos perfis profissionais que deverão ganhar relevância para incorporá-las aos processos produtivos.

Os estudos mostram que a transformação da Base Industrial de Defesa é impulsionada por um conjunto de tecnologias que ultrapassa as fronteiras de segmentos específicos.

Inteligência artificial, cibersegurança e engenharia digital aparecem entre os principais vetores dessa mudança, ao lado de tecnologias que ampliam a integração entre sistemas, dados e diferentes etapas do ciclo de vida dos produtos.

Entre as tecnologias transversais identificadas nos estudos estão:

Tecnologia e presença nos segmentos analisados


Inteligência artificial - 100%
Cibersegurança - 100%
Engenharia digital - 87,5%
Integração digital do ciclo de vida - 87,5%
Sensores inteligentes - 87,5%
Gêmeos digitais - 87,5%
Sistemas autônomos - 75%
Arquiteturas abertas - 75%
Manufatura aditiva - 75%
Novos materiais - 75%

A difusão dessas tecnologias aponta para uma mudança significativa na organização do trabalho. Atividades tradicionalmente concentradas em processos operacionais tendem a incorporar funções relacionadas à integração de sistemas, análise de dados, tomada de decisão e gestão de ambientes cada vez mais complexos e conectados.

Com isso, cresce a importância de profissionais capazes de combinar conhecimentos técnicos, competências digitais e uma visão sistêmica dos processos.

Os cadernos também identificam um conjunto de conhecimentos, habilidades e aptidões que deverá ganhar importância à medida que a Base Industrial de Defesa avance em sua transformação tecnológica.

Conhecimentos
Engenharia de sistemas
Tecnologias digitais
Cibersegurança
Confiabilidade
Gestão do ciclo de vida
Governança e gestão
Habilidades
Analisar sistemas
Integrar sistemas
Analisar dados
Monitorar sistemas
Validar sistemas
Resolver problemas complexos
Tomar decisões baseadas em evidências
Aprender continuamente
Aptidões
Pensamento analítico
Pensamento sistêmico
Adaptabilidade
Atenção seletiva
Percepção de problemas
Responsabilidade
Estabilidade emocional

Os estudos indicam que já está em curso uma transição de uma indústria predominantemente baseada em plataformas físicas para uma Base Industrial de Defesa cada vez mais digital, conectada, inteligente e intensiva em conhecimento.

“A transformação da Base Industrial de Defesa não exige apenas novos conhecimentos técnicos. Ela demanda uma reconfiguração simultânea dos conhecimentos que estruturam a formação, das habilidades que sustentam a execução do trabalho e das aptidões que permitem atuar em ambientes caracterizados por elevada complexidade, integração tecnológica e incerteza”, explica o gerente do Observatório Nacional da Indústria, Rafael Sousa.

Segundo ele, à medida que os sistemas de defesa incorporam inteligência artificial, automação e digitalização, ganham importância capacidades humanas como interpretar, integrar informações, tomar decisões, adaptar-se e agir com responsabilidade.

A publicação também identifica desafios que podem limitar o avanço da Base Industrial de Defesa brasileira, entre eles a dependência tecnológica externa, o financiamento insuficiente e irregular, a fragmentação da cadeia produtiva, a escassez de competências e as vulnerabilidades cibernéticas.

Ao mesmo tempo, os estudos apontam oportunidades associadas à antecipação dessas transformações. O acompanhamento das tendências tecnológicas pode contribuir para estimular a inovação, fortalecer a soberania tecnológica, ampliar a cooperação entre empresas, governo e instituições de ensino, desenvolver talentos e fortalecer as capacidades de defesa cibernética do país.

“Fortalecer a Base Industrial de Defesa significa preparar a indústria brasileira para as transformações que já estão em curso e para aquelas que ainda virão. Com esses cadernos, transformamos conhecimento e visão de futuro em inteligência para orientar políticas públicas, investimentos e decisões empresariais”, afirma o presidente da ABDI, Olavo Noleto.

Para ele, os setores de defesa são intensivos em tecnologia e conhecimento e possuem potencial para gerar impactos positivos também em outros segmentos da economia. “Antecipar tecnologias, identificar as competências que precisaremos desenvolver e compreender nossas vulnerabilidades é essencial para construir uma indústria de defesa mais competitiva, resiliente e menos dependente de capacidades externas”, completa.

Os cadernos devem servir como referência para empresas, instituições de ensino, formuladores de políticas públicas e demais atores do ecossistema de defesa, apoiando decisões relacionadas à formação profissional, infraestrutura tecnológica, investimentos e desenvolvimento de talentos.

Dados do Ministério da Defesa indicam que as exportações da Base Industrial de Defesa cresceram 29% no primeiro semestre deste ano, alcançando US$ 1,8 bilhão em autorizações para exportação.

Os produtos brasileiros chegaram a 150 países, por meio de 130 empresas exportadoras.

Entre os principais produtos e serviços comercializados no exterior estão aeronaves e componentes, explosivos, bombas, armamentos leves, munições e serviços de engenharia associados a produtos de defesa de alto valor agregado.

Atualmente, a Base Industrial de Defesa e Segurança representa 3,41% do PIB brasileiro, reforçando o peso econômico de um setor que, além de atender às demandas estratégicas do país, também concentra tecnologias, conhecimentos e competências com potencial de impacto sobre diferentes áreas da economia.

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