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Roberto Rodrigues, ex-ministro da Agricultura. (Fotos: Divulgação)
Ex-ministro defende integração entre crédito, tecnologia e organização para ampliar a competitividade brasileira
O futuro da produção de alimentos, da segurança alimentar mundial e do desenvolvimento econômico do Brasil passa, na visão de Roberto Rodrigues, pelo fortalecimento do cooperativismo. A afirmação foi feita durante a participação do ex-ministro da Agricultura no 16º Congresso Brasileiro do Cooperativismo de Crédito (Concred), em Goiânia, em conversa conduzida pela jornalista Kelly Godoy.
Ao longo do encontro, Rodrigues, que também foi presidente da Organização das Cooperativas Brasileiras (OCB) e da Aliança Cooperativa Internacional, abordou temas como crédito rural, juros, endividamento, tecnologia, competitividade internacional e o papel estratégico das cooperativas para o futuro do agronegócio brasileiro.
Para ele, o cooperativismo de crédito representa uma das estruturas mais importantes para apoiar produtores rurais em momentos de instabilidade econômica e garantir condições para que o Brasil amplie sua participação na produção mundial de alimentos.
Uma trajetória construída com o cooperativismo de crédito
Roberto Rodrigues lembrou sua atuação na criação de cooperativas de crédito ainda na década de 1970, quando o acesso ao financiamento rural era mais restrito.
Na época, segundo ele, havia forte concentração da oferta de crédito e poucas alternativas para os produtores rurais. Foi nesse contexto que surgiu a percepção de que uma cooperativa de crédito poderia oferecer mais segurança, melhor controle e maior proximidade com os associados. “Eu imaginava que caminharíamos para isso, mas nunca imaginei a velocidade e a competência com que o cooperativismo de crédito cresceria.”
Ao relembrar essa trajetória, Rodrigues destacou a importância da evolução regulatória, da atuação do Banco Central e das mudanças institucionais que permitiram ao cooperativismo financeiro alcançar o estágio atual.
Ao analisar o cenário atual, marcado por juros elevados, desafios geopolíticos, tarifas comerciais, custos de produção e aumento da inadimplência, Roberto Rodrigues utilizou uma metáfora para explicar sua visão sobre os ciclos econômicos.
Segundo ele, crises se comportam como um tsunami. “As árvores que têm raízes firmes balançam, mas permanecem. As que não têm raízes firmes desaparecem.”
Para o ex-ministro, não existe uma fórmula única para superar períodos de dificuldade, porque cada crise possui características próprias. Ainda assim, existe uma regra geral que permanece válida: “fazer mais com menos”.
Na prática, isso significa elevar a eficiência produtiva, aprimorar a gestão, buscar tecnologia, melhorar a logística e adaptar continuamente as estratégias às condições do mercado.
Tecnologia, gestão e conhecimento de mercado
Questionado sobre a diversidade da agricultura brasileira, Roberto Rodrigues destacou que o País reúne realidades muito distintas. Existem diferenças climáticas, fundiárias, produtivas e logísticas que tornam impossível aplicar uma solução única para todas as regiões.
Mesmo assim, ele acredita que três fundamentos permanecem universais: tecnologia, gestão e conhecimento de mercado. “Primeiro, tecnologia. Segundo, gestão racional. Terceiro, conhecer o mercado.”
Na avaliação do ex-ministro, são esses três pilares que explicam os avanços obtidos pelo agronegócio brasileiro ao longo das últimas décadas. Um dos pontos de destaque da entrevista foi a análise sobre o papel do Brasil na produção global de alimentos.
Roberto Rodrigues citou estudos da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) que projetam crescimento de aproximadamente 20% na oferta mundial de alimentos ao longo da próxima década para atender à demanda global. Segundo ele, o Brasil possui condições para crescer ainda mais. “A OCDE afirma que o Brasil pode aumentar sua produção de alimentos em 40% nos próximos 10 anos.”
Na avaliação do ex-ministro, poucos países reúnem simultaneamente tecnologia tropical consolidada, disponibilidade de terras, empreendedorismo rural, condições climáticas favoráveis e capacidade de desenvolver políticas públicas compatíveis com o crescimento da produção.
Essa combinação coloca o País em posição privilegiada para ampliar sua participação no abastecimento mundial.
Transformação do agro teve a tecnologia como base
Roberto Rodrigues também fez uma retrospectiva da transformação agrícola brasileira. Segundo ele, há cerca de 50 anos o Brasil importava parcela significativa dos alimentos que consumia.
A mudança começou a ganhar força com a criação da Embrapa e com a adaptação de tecnologias ao ambiente tropical, especialmente ao Cerrado.
O ex-ministro citou o avanço da soja como exemplo. Originalmente uma cultura adaptada a regiões temperadas, a soja passou a prosperar em larga escala nos trópicos graças à pesquisa científica desenvolvida no País.
O mesmo ocorreu com o algodão, a produção de carnes e outras cadeias agropecuárias. “A tecnologia fez isso acontecer.”
Hoje, o Brasil figura entre os maiores exportadores mundiais de diversas commodities agrícolas, incluindo soja, açúcar, café, carne bovina, carne de frango, algodão e suco de laranja.
Ao tratar do financiamento rural, Roberto Rodrigues destacou que momentos de incerteza costumam levar instituições financeiras tradicionais a adotar critérios mais rigorosos para a concessão de crédito.
Nesse contexto, as cooperativas assumem papel ainda mais relevante. O motivo, segundo ele, está na própria natureza do modelo cooperativo. “Na cooperativa, quem toma crédito é dono da instituição.”
Por essa razão, existe uma relação mais próxima entre a organização e o associado, permitindo melhor conhecimento da atividade econômica, acompanhamento mais frequente e maior capacidade de oferecer orientação ao produtor.
Para Roberto Rodrigues, uma das vantagens mais importantes do cooperativismo financeiro é a capacidade de unir crédito e relacionamento. Segundo ele, as cooperativas apresentam historicamente índices menores de inadimplência quando comparadas a outras instituições financeiras.
Isso ocorre porque o cooperado não é apenas um cliente. Ele participa da instituição, possui vínculo econômico e social com a cooperativa e mantém relacionamentos de longo prazo. “No banco, o cliente é um número. Na cooperativa, é uma pessoa.”
O ex-ministro destacou também a importância da assistência técnica, da orientação financeira e do acompanhamento contínuo como diferenciais competitivos do modelo cooperativo.
Escala é fundamental para gerar renda
Outro aspecto ressaltado por Roberto Rodrigues foi a importância da escala econômica para a sustentabilidade da atividade rural. Segundo ele, a geração de renda no campo depende cada vez mais da capacidade de organização dos produtores.
Nesse contexto, o cooperativismo desempenha papel essencial. As cooperativas permitem agregar produção, compartilhar estruturas, ampliar o acesso a mercados, reduzir custos e fortalecer o poder de negociação dos associados. “A renda no campo se faz com escala.”
Por isso, o cooperativismo continua sendo um dos principais instrumentos de fortalecimento dos pequenos e médios produtores.
Embora tenha destacado a contribuição das cooperativas para o financiamento rural, Roberto Rodrigues afirmou que a questão principal está além do cooperativismo.
Na avaliação dele, o problema central do crédito no Brasil continua sendo macroeconômico. O ex-ministro voltou a chamar atenção para a importância do equilíbrio fiscal e para os efeitos que os juros elevados produzem sobre toda a atividade produtiva. “Juros de 20% ao ano inviabilizam qualquer atividade produtiva.”
Segundo ele, sem maior disciplina fiscal e previsibilidade econômica, o custo do dinheiro continuará pressionando produtores, empresas e consumidores. As cooperativas podem mitigar parte desse problema por meio da proximidade, da orientação e de uma gestão de risco mais adequada, mas a solução estrutural depende de medidas econômicas mais amplas.
Cooperativismo pode apoiar uma nova etapa do agro
Ao final da conversa, Roberto Rodrigues voltou a defender uma atuação cada vez mais integrada entre o cooperativismo agropecuário e o cooperativismo de crédito. Na visão dele, os desafios da próxima década exigirão mais cooperação, organização e capacidade de atuação conjunta.
O Brasil possui potencial para ampliar sua participação na produção mundial de alimentos, mas essa oportunidade dependerá da capacidade de transformar vantagens naturais em competitividade econômica. Nesse processo, as cooperativas aparecem como um dos principais instrumentos para ampliar escala, fortalecer produtores, gerar renda e financiar investimentos.
Para Roberto Rodrigues, tecnologia, gestão, conhecimento de mercado e cooperação continuarão sendo os pilares que sustentarão o crescimento do agronegócio brasileiro e seu papel estratégico na segurança alimentar mundial.
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