Indexação ao Brent tem origem na competição entre energéticos, mas novas referências de preço e o aumento da oferta de gás ampliam as possibilidades para o mercado brasileiro

A correlação histórica entre os preços do petróleo e do gás natural no Brasil tem raízes na lógica de competição energética e na estrutura dos contratos internacionais de gás natural liquefeito (GNL). Esses dois energéticos possuem mercados, estruturas logísticas e dinâmicas de oferta e demanda distintas. Enquanto o petróleo opera em um mercado global altamente integrado, a formação dos preços do gás ainda varia significativamente entre regiões, embora a expansão do comércio internacional de GNL tenha aumentado a conexão entre esses mercados.

A lógica da oil parity

Quando os primeiros contratos de longo prazo de GNL foram estruturados, nas décadas de 1960 e 1970, não havia um mercado global líquido de gás. A referência natural para o preço era o petróleo, já que o gás competia diretamente com derivados como o óleo combustível na geração térmica e na indústria. Essa lógica ficou conhecida como oil parity.

No Brasil, essa convenção foi herdada. Segundo Javier Toro, gerente sênior de Pesquisa de Gás e Energia do Cone Sul na Wood Mackenzie, a escolha também estava relacionada à competição entre diferentes fontes de energia. "Historicamente, a indexação ao petróleo surgiu porque, na ausência de mercados líquidos de gás, os derivados de petróleo eram um dos principais combustíveis alternativos ao gás natural. O petróleo passou, então, a funcionar como referência para o valor econômico do gás nos contratos de longo prazo", afirma Toro.

A lógica que sustentou a indexação ao petróleo por décadas passou a ser questionada à medida que os mercados de gás ganharam maior liquidez e desenvolveram referências próprias de preço.

"A crítica principal é simples: o petróleo e o gás natural são commodities diferentes, com mercados diferentes, fundamentos diferentes e, portanto, dinâmicas de oferta e demanda bem diferentes", avalia Toro. "Quando você indexa o gás ao Brent, o consumidor brasileiro fica exposto à dinâmica do mercado de petróleo internacional e a choques geopolíticos que podem ter pouca relação com os fundamentos do mercado de gás."

As referências de preço do gás natural

Desde fevereiro de 2026, a Petrobras passou a oferecer como alternativa a indexação de uma parcela de seus contratos ao Henry Hub, principal referência de preços do gás natural nos Estados Unidos e um dos principais benchmarks do mercado internacional.

A mudança acompanha uma transformação mais ampla do mercado internacional. "Hoje, os mercados internacionais de gás já contam com referências próprias. A gente tem o Henry Hub nos Estados Unidos, JKM na Ásia, o TTF na Europa. A liquidez nesses hubs tem crescido consistentemente", afirma Toro.

Para o especialista, a diferença em relação ao Brent é fundamental: "O Henry Hub é um preço de gás determinado pelo mercado de gás dos Estados Unidos."

A indexação ao Henry Hub reduz a exposição direta ao petróleo, mas introduz exposição às condições do mercado americano de gás. Já o custo efetivo de uma carga de GNL importada também depende de outros componentes, como liquefação, frete e diferenciais de preço entre mercados.

A inclusão do Henry Hub nos contratos brasileiros também reflete a crescente importância dos Estados Unidos no mercado internacional de GNL. "À medida que os Estados Unidos se tornam o maior exportador de GNL no mundo — esperamos que a partir da década de 2040 eles representem cerca de 40% da oferta global de GNL —, o Henry Hub passa a ter mais peso como referência do preço do gás internacional", explica Toro.

A oferta de gás natural no Brasil

Para o mercado brasileiro, o movimento mais relevante é a possibilidade de construção de portfólios de suprimento com diferentes contratos, referências de preço e graus de flexibilidade. "Uma tendência que podemos ver entre as distribuidoras é a construção de portfólios mais diversificados, combinando uma base de contratos firmes, que oferece segurança de suprimento, com volumes mais flexíveis ou compras de curto prazo que permitem capturar oportunidades de mercado", explica Toro.

A expansão da produção nacional adiciona uma variável importante a essa equação. Em princípio, o aumento da disponibilidade de gás produzido no Brasil deveria reduzir a dependência de referências internacionais e ampliar as possibilidades de competição no mercado doméstico. Mas isso depende de como o gás é comercializado, da infraestrutura disponível e das condições de competição no mercado.

"Em tese, mais gás doméstico deveria reduzir a dependência dessas referências de preços internacionais. Mas, na prática, a gente não tem um hub comercial que produz um indicador de preços locais", observa Toro. "Então, se o aumento da oferta doméstica não vier acompanhado de maior competição, liquidez e mecanismos de formação de preços que reflitam as condições do próprio mercado brasileiro, parte desse benefício pode não ser integralmente transmitida ao consumidor."

A questão, portanto, não é apenas quanto gás o Brasil será capaz de produzir, mas como esse gás será precificado e comercializado. A expansão da oferta pode criar condições para preços mais competitivos, mas o benefício dependerá da estrutura de mercado e dos mecanismos de formação de preços.

"O mundo caminha para um cenário de gás internacional mais barato e o Brasil para um forte aumento da oferta doméstica", resume Toro. "A grande questão é: esses mecanismos de precificação do Brasil vão permitir que esse benefício de preço mais baixo chegue até a conta final? Essa provavelmente será a discussão mais importante para os próximos anos."

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