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Em um momento de profunda reorganização das cadeias produtivas globais, o Brasil e a Índia se mobilizam para fortalecer a integração econômica, que ganhou força na última década. (Fotos: Gabriel Pinheiro / CNI)
CNI, governo e empresários defendem modernização das regras para ampliar comércio, investimentos e cooperação tecnológica entre os dois países
Brasil e Índia buscam ampliar a integração econômica em um momento de transformação das cadeias produtivas globais. Representantes dos governos e dos setores empresariais dos dois países se reuniram na quinta-feira (27), na Confederação Nacional da Indústria (CNI), durante a India-Brazil High-Level Business Reception, para discutir oportunidades de comércio, investimentos, cooperação tecnológica e facilitação das relações comerciais.
A aproximação ganhou força na última década. Segundo análise divulgada pela CNI, a corrente de comércio entre Brasil e Índia passou de US$ 5,6 bilhões em 2016 para US$ 15,2 bilhões em 2025, um crescimento de quase três vezes.
Apesar do avanço, empresários e autoridades avaliam que existe um potencial ainda maior a ser explorado, especialmente por meio da ampliação do acordo comercial entre o Mercosul e a Índia e da diversificação dos produtos negociados.
O encontro foi realizado pela CNI em parceria com a Confederação da Indústria Indiana (CII) e a ApexBrasil.
Entre os participantes estiveram o secretário de Comércio do Ministério do Comércio e Indústria da Índia, Shri Rajesh Agrawal; a secretária de Comércio Exterior do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC), Tatiana Prazeres; o embaixador da Índia no Brasil, Dinesh Bhatia; a diretora de Negócios da ApexBrasil, Maria Paula Velloso; e o presidente da Federação das Indústrias do Estado de Goiás (FIEG), André Rocha, além de representantes dos setores público e privado.
Representando a CNI no encontro, André Rocha destacou a importância da parceria com a Índia para a inserção internacional das empresas brasileiras.
Segundo ele, apesar do crescimento do comércio bilateral, ainda existe espaço significativo para ampliar as exportações brasileiras. Um levantamento identificou 377 oportunidades de produtos da indústria de transformação brasileira com potencial de venda para o mercado indiano.
“Acreditamos que o diálogo constante entre os governos e os empresários elevará as relações entre o Brasil e a Índia a um novo patamar. Com uma agenda bilateral orientada para resultados, poderemos ampliar o comércio, os investimentos e a cooperação tecnológica entre os nossos países”, afirmou Rocha.
O presidente da FIEG também informou que a CNI levará as principais demandas do setor produtivo à Cúpula dos BRICS, em setembro. Entre as prioridades estão a modernização do Acordo de Preferência Tarifária Mercosul-Índia, a redução de barreiras tarifárias e a simplificação dos procedimentos aduaneiros.
A secretária de Comércio Exterior do MDIC, Tatiana Prazeres, reconheceu que o acordo comercial entre o Mercosul e a Índia está defasado em relação ao tamanho das duas economias.
Atualmente, o tratado contempla apenas 452 linhas tarifárias de um universo de aproximadamente 9 mil, o que, segundo a avaliação do governo brasileiro, demonstra a necessidade de atualização.
Para Tatiana, o desafio não está apenas em aumentar o valor do comércio, mas também em diversificar os produtos negociados entre os dois países. “O Brasil tem potencial para oferecer à Índia muito além das commodities tradicionais, como alimentos e energia. Devemos colaborar de forma mais estreita em setores estratégicos, como o aeroespacial, de soluções de engenharia, de equipamentos médicos e de tecnologias sustentáveis”, afirmou.
Do lado indiano, o embaixador Dinesh Bhatia e o secretário de Comércio Shri Rajesh Agrawal destacaram a importância do diálogo entre os governos e empresas para avançar na relação bilateral.
A expectativa é que a nova etapa da parceria seja estruturada em quatro pilares: investimento, inovação, integração e impacto. Segundo Shri Rajesh, a complementaridade entre as duas economias abre espaço para a formação de cadeias de suprimentos conjuntas.
Entre as possibilidades citadas estão a combinação da experiência indiana em tecnologia da informação, inteligência artificial e indústria farmacêutica, incluindo medicamentos genéricos e vacinas, com a capacidade brasileira em agricultura, minerais críticos e transição energética.
Nesse último segmento, foram destacados setores como etanol, biogás e hidrogênio verde. A aproximação entre os dois mercados já ocorre na prática. Durante o encontro, empresas brasileiras e indianas apresentaram experiências de atuação conjunta.
A Embraer destacou uma parceria recente com um conglomerado indiano e a abertura de um escritório no país, com previsão de transferência de tecnologia.
A WEG, por sua vez, utiliza a Índia como base produtiva há 15 anos. A empresa apresentou sua experiência no mercado indiano para reforçar a importância de investimentos de longo prazo na construção de uma relação comercial mais sólida.
Também participaram do encontro representantes da UPL Limited, multinacional indiana do setor de soluções agrícolas, além de integrantes da delegação empresarial e governamental da Índia.
Apesar do forte crescimento da corrente comercial, a análise da CNI mostra que a expansão ocorreu de maneira desequilibrada. Entre 2016 e 2025, as exportações brasileiras para a Índia cresceram 117,2%, chegando a US$ 6,9 bilhões no ano passado.
As importações brasileiras de produtos indianos, entretanto, avançaram 236% no mesmo período, alcançando US$ 8,3 bilhões em 2025. Com isso, o Brasil mantém déficit comercial com a Índia desde 2019.
Outro dado que chama atenção é a utilização limitada do acordo comercial entre Mercosul e Índia. Em 2025, 84,6% das exportações brasileiras para o mercado indiano e 60,6% das importações provenientes daquele país ocorreram fora do escopo do acordo.
Para a CNI, os números indicam que o tratado tem sido mais aproveitado pelas empresas indianas do que pelas brasileiras. A indústria de transformação brasileira tem 377 oportunidades comerciais de exportação para a Índia, segundo levantamento da CNI baseado em dados da ApexBrasil.
Os produtos foram identificados considerando a competitividade brasileira no comércio internacional e a compatibilidade com a pauta de importações da Índia. As oportunidades estão distribuídas por 19 setores da indústria de transformação, indicando espaço para ampliar a participação brasileira no mercado asiático.
Para reduzir entraves e aproveitar o potencial da relação bilateral, a CNI apresentou uma agenda de medidas aos governos dos dois países.
Entre as principais prioridades estão:
Modernizar o acordo comercial entre Mercosul e Índia, ampliando o número de produtos contemplados;
Negociar um Acordo de Reconhecimento Mútuo entre os programas de Operador Econômico Autorizado, facilitando os procedimentos aduaneiros;
Revisar barreiras comerciais, incluindo tarifas elevadas e exigências regulatórias que dificultam o acesso aos mercados;
Fortalecer a cooperação regulatória para reduzir entraves ao comércio;
Ampliar a digitalização do comércio bilateral, com documentos eletrônicos e novas tecnologias nos processos aduaneiros;
Aproximar as políticas industriais dos dois países, incluindo programas brasileiros e indianos voltados à indústria, semicondutores e inteligência artificial;
Aprofundar a cooperação em transição energética, especialmente em biocombustíveis, hidrogênio verde, energia solar e descarbonização;
Ampliar a cooperação em minerais críticos, envolvendo exploração sustentável, beneficiamento, reciclagem e regulamentação.
Para a indústria brasileira, a combinação de novos investimentos, redução de barreiras e modernização do acordo comercial pode transformar o crescimento registrado na última década em uma relação econômica mais equilibrada e com maior participação de produtos de maior valor agregado.
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