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. (Fotos: Reprodução Internet/brgfx)
Apesar dos R$ 610,3 bilhões anunciados pelo Governo Federal, lideranças do setor cooperativista apontam desafios no custeio, juros, proteção contra riscos climáticos e sustentabilidade financeira dos produtores rurais
O anúncio do Plano Safra 2026/2027, com volume recorde de R$ 610,3 bilhões para financiar a agropecuária brasileira, foi recebido de forma positiva pelo setor produtivo. No entanto, lideranças do cooperativismo avaliam que o aumento dos recursos, por si só, não resolve os principais desafios enfrentados pelos produtores rurais.
Entre as preocupações estão o crescimento do endividamento, a redução dos recursos destinados ao custeio, a maior dependência de crédito privado e a ausência de uma política mais robusta de seguro rural.
Do total anunciado pelo Governo Federal, R$ 525,1 bilhões serão destinados à agricultura empresarial e R$ 97,3 bilhões à agricultura familiar, contemplando linhas de crédito para pequenos produtores.
Para representantes do setor, o valor histórico precisa ser analisado além do montante nominal, levando em consideração o aumento dos custos de produção, os impactos das mudanças climáticas e a transformação do modelo de financiamento agrícola no país.
O presidente do Sistema OCESC, Vanir Zanatta, afirma que o Plano Safra continua sendo uma importante ferramenta de apoio ao campo, mas ainda deixa de enfrentar questões consideradas essenciais para garantir a sustentabilidade da produção.
Segundo ele, o produtor rural convive com uma combinação de custos elevados, instabilidade de mercado e prejuízos provocados por eventos climáticos.
"O produtor fez sua parte, investiu, enfrentou desafios climáticos e entregou safras cada vez maiores. Porém, os custos continuaram subindo e os preços recebidos nem sempre acompanharam esse movimento, aumentando o endividamento do setor."
Zanatta também destaca que a agricultura familiar precisa de atenção especial. "O agricultor quer produzir, gerar renda e sustentar sua família. O crédito não é privilégio, é financiamento que será pago e que movimenta toda a economia."
Entre os pontos considerados positivos pelas cooperativas estão as medidas voltadas ao fortalecimento dos investimentos no setor.
O Plano Safra prevê:
redução das taxas de juros do Prodecoop;
redução dos juros do Procap-Agro;
queda da taxa para recursos controlados destinados às cooperativas, de 14% para 12,5% ao ano;
ampliação dos limites de financiamento para cooperativas singulares, centrais e federações;
autorização para utilização de recursos do Prodecoop em projetos de geração e armazenamento de energia renovável para consumo próprio.
Na avaliação do cooperativismo, essas medidas ampliam a capacidade de modernização, agregação de valor e competitividade das cooperativas agropecuárias. Apesar dos avanços, a análise técnica do Sistema OCB aponta pontos de preocupação.
Entre eles estão:
redução de aproximadamente 28,8% dos recursos destinados ao Prodecoop e ao Procap-Agro;
menor volume de recursos para custeio e comercialização;
dificuldade para comparar o Plano Safra atual com os anteriores devido à inclusão de programas como Move Agricultura e EcoInvest no montante total anunciado.
Segundo a entidade, isso dificulta a avaliação do volume efetivamente disponível para financiar a produção agropecuária.
Para o presidente da Fecoagro, Arno Pandolfo, o valor recorde anunciado não representa, necessariamente, maior capacidade de financiamento quando se considera a inflação e a alta dos custos agrícolas.
Ele avalia positivamente a redução das taxas de juros, mas destaca que cresce a participação de recursos privados, normalmente com taxas mais elevadas.
O maior problema, segundo Pandolfo, continua sendo a fragilidade do seguro rural. "O crédito sozinho não resolve o problema quando o produtor enfrenta uma quebra de safra provocada por seca, excesso de chuva ou outros eventos climáticos. Sem um seguro agrícola eficiente, o produtor assume o risco da produção sem proteção suficiente para se recuperar."
O presidente da Aurora Coop, Neivor Canton, também demonstra preocupação com a redução dos recursos destinados ao custeio agrícola, linha utilizada para aquisição de insumos e manutenção das lavouras.
Segundo ele, embora o volume anunciado seja recorde, parte significativa do financiamento dependerá de fontes privadas.
Entre os pontos destacados está a redução de 7,2% dos recursos para custeio. "Estamos vivendo uma transição estrutural, na qual o modelo tradicional de crédito rural perde espaço para fontes privadas." Na avaliação de Canton, esse cenário pode limitar investimentos e até influenciar decisões sobre a área plantada na próxima safra.
Como aspecto positivo, ele destaca o fortalecimento do Pronaf, com aumento dos recursos disponíveis, redução das taxas de juros e ampliação das linhas para investimentos.
Para o gerente de Agronegócio do Sicoob Central SC/RS, Paulo Vitor Sangaletti, o Plano Safra apresenta avanços pontuais, mas ainda não atende integralmente às necessidades do agronegócio brasileiro.
Segundo ele, a agricultura empresarial recebeu melhorias nas condições de financiamento, porém o plano continua focado principalmente na oferta de crédito.
"O Plano Safra melhora o ambiente de crédito, mas ainda é mais um plano de financiamento da produção do que uma política completa de gestão de risco, renda, seguro, renegociação e competitividade."
Na avaliação do especialista, a agricultura familiar foi proporcionalmente mais beneficiada, enquanto a agricultura empresarial recebeu um plano de continuidade, ainda aquém das demandas do setor.
As lideranças do cooperativismo avaliam que o Plano Safra 2026/2027 mantém o financiamento da produção, mas confirma uma mudança estrutural no crédito rural brasileiro.
Com maior participação do mercado privado, aumento dos riscos climáticos e necessidade de ampliar a proteção ao produtor, o setor defende uma política agrícola mais abrangente, que reúna crédito, seguro rural, gestão de risco e mecanismos de proteção de renda.
Para o cooperativismo, garantir recursos para produzir continuará sendo importante, mas o grande desafio dos próximos anos será oferecer também segurança econômica para quem está no campo.
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