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O respeito à saúde e à dignidade do autista precisa nortear a comunicação e a prática clínica (Fotos: Divulgação)
A diferença fundamental entre viver o autismo e viver do autismo reside na linha que separa a própria existência e a dignidade humana do mercado e do lucro econômico.
Diante do crescimento exponencial de diagnósticos e da busca por intervenções, debater essa distinção torna-se urgente para garantir que a ética profissional e o respeito absoluto à saúde do autista guiem todas as ações do mercado.
Viver o autismo significa enfrentar diariamente barreiras sociais, sensoriais e de comunicação em um mundo que não foi planejado para mentes atípicas. Para o indivíduo autista, a neurodivergência molda sua forma de perceber o mundo, de se expressar e de interagir. Para as famílias, envolve uma jornada intensa de acolhimento, busca por direitos, superação de preconceitos e administração de rotinas terapêuticas exaustivas.
Por outro lado, viver do autismo é uma escolha profissional. O ecossistema que envolve a neurodivergência movimenta um mercado bilionário que inclui terapeutas ocupacionais, psicólogos, fonoaudiólogos, médicos, advogados e influenciadores digitais; essa estrutura é vital, pois a evolução e o bem-estar da pessoa autista dependem diretamente de intervenções baseadas em evidências científicas.
No entanto, o problema surge quando a lógica comercial sobrepõe-se à necessidade humana, transformando a vulnerabilidade de famílias e indivíduos em um mero nicho de negócios altamente lucrativo.Nesse cenário, a ética profissional deve atuar como o pilar central e inegociável de qualquer serviço prestado. Viver do autismo de forma ética exige que o profissional coloque o bem-estar do paciente acima das metas financeiras. Isso significa rechaçar a promessa de "curas" milagrosas, recusar a imposição de cargas horárias terapêuticas abusivas que visam apenas o lucro da clínica e combater o uso de abordagens sem comprovação científica que submetem a pessoa a estresse desnecessário.
Além disso, o respeito à saúde e à dignidade do autista precisa nortear a comunicação e a prática clínica. No ambiente digital, assiste-se frequentemente à espetacularização do autismo, onde crises de desorganização são expostas para engajar redes sociais ou vender cursos.
Viver do autismo é legítimo e necessário, desde que a prática sirva para amparar, e não para explorar, quem de fato vive o autismo.
O mercado da neurodiversidade só cumpre seu papel social quando utiliza seus recursos e conhecimentos para garantir acessibilidade, autonomia e respeito, assegurando que a saúde física e mental das pessoas autistas permaneça sempre como o objetivo final, e nunca como um meio para o lucro.
Até a próxima!
Adair Alexandre Pimentel
Coluna AUTISMO EM PAUTA
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