A questão não deve ser simplesmente considerar a presença chinesa positiva ou negativa. A questão relevante é: qual será a estratégia brasileira diante dessa transformação?, questiona o autor

Durante muitos anos, a presença da China no Brasil foi percebida principalmente pelas estatísticas do comércio exterior. Soja, minério de ferro, petróleo e carnes seguiam em direção ao mercado chinês, enquanto máquinas, equipamentos, eletrônicos e uma enorme variedade de produtos industrializados faziam o caminho inverso.
Esse modelo continua importante, mas já não explica a dimensão da relação entre os dois países.

Um movimento silencioso e, ao mesmo tempo, muito rápido está acontecendo no Brasil.
A China está deixando de ser apenas uma grande compradora de produtos brasileiros e fornecedora de bens industriais para se tornar investidora, produtora, parceira tecnológica e participante cada vez mais direta do cotidiano do consumidor brasileiro.
Energia, mineração, automóveis, comércio eletrônico, alimentação, plataformas digitais, logística e serviços começam a compor uma nova dimensão da presença chinesa no país.

É silencioso porque não existe um único grande movimento que explique essa transformação. São dezenas de empresas, investimentos e projetos avançando simultaneamente. E é rápido porque setores que até poucos anos atrás praticamente não contavam com marcas chinesas passaram a registrar uma presença crescente dessas companhias.

Da commodity ao consumidor
A primeira grande fase da relação Brasil-China foi marcada pela complementaridade econômica. A China precisava de alimentos, energia e matérias-primas para sustentar seu extraordinário crescimento. O Brasil possuía capacidade de fornecê-los em grande escala. Agora surge uma nova etapa.

As empresas chinesas não querem apenas comprar no Brasil ou exportar para o Brasil. Muitas querem produzir, investir, operar e vender diretamente ao consumidor brasileiro.
Essa transformação já pode ser percebida nas ruas, nas concessionárias, nos shopping centers, nos aplicativos instalados nos celulares e nas compras realizadas pela internet.

A revolução chinesa sobre quatro rodas
O setor automobilístico talvez seja a demonstração mais visível dessa mudança.
BYD, GWM, Chery, Geely e outras marcas chinesas passaram a ocupar um espaço crescente no mercado brasileiro, principalmente nos segmentos de veículos elétricos e híbridos.

Mas a mudança mais importante não está apenas no aumento das importações.
A estratégia começa a envolver produção local, redes de concessionárias, assistência técnica, financiamento, fornecedores e desenvolvimento de produtos adaptados ao mercado brasileiro.

A BYD avançou com sua operação industrial em Camaçari, na Bahia. A GWM estabeleceu produção em Iracemápolis, São Paulo. A Chery já possui uma trajetória industrial no país por meio da Caoa Chery.

Outros fabricantes chineses também observam um mercado de mais de 200 milhões de consumidores e uma indústria automobilística historicamente relevante.
Existe ainda outro aspecto estratégico: o automóvel está se transformando em uma plataforma tecnológica.

Baterias, inteligência artificial, eletrônica embarcada, conectividade, software e sistemas de gerenciamento de energia tornam-se tão importantes quanto o motor.
E são justamente algumas das áreas nas quais a indústria chinesa avançou rapidamente nos últimos anos.
A competição automobilística no Brasil, portanto, não envolve apenas novas marcas. Representa uma disputa por espaço na indústria da mobilidade do futuro.

Da indústria aos restaurantes
Outro sinal dessa transformação está surgindo em um setor muito diferente: alimentação e fast-food.
Durante décadas, as grandes redes internacionais presentes no Brasil eram predominantemente ocidentais, especialmente norte-americanas.

Agora começam a chegar marcas chinesas.
Um dos exemplos é a Mixue, gigante chinesa de sorvetes, chás e bebidas, que iniciou sua expansão no mercado brasileiro com planos de estabelecer uma ampla rede de lojas.

O caso é especialmente interessante porque mostra uma nova face da China.
Durante décadas, empresas chinesas ficaram conhecidas por fabricar produtos para marcas estrangeiras. Hoje, cada vez mais, a China está exportando suas próprias marcas.

Essas companhias chegam com experiência adquirida em um mercado consumidor gigantesco, forte padronização, domínio de cadeias de suprimentos, preços competitivos e utilização intensiva de tecnologia.
A internacionalização chinesa começa, portanto, a alcançar até mesmo o consumo cotidiano.

A disputa pelo delivery
Outro movimento importante ocorre dentro dos celulares dos brasileiros.
O mercado de entregas tornou-se uma nova fronteira para empresas chinesas.
A 99, controlada pela chinesa DiDi, ampliou sua presença no segmento de alimentação com a 99Food. Ao mesmo tempo, a Keeta, plataforma internacional da chinesa Meituan, entrou no mercado brasileiro.

A Meituan desenvolveu na China um dos maiores ecossistemas de serviços e entregas do mundo, utilizando algoritmos e inteligência artificial para coordenar restaurantes, consumidores e entregadores.
A entrada dessas plataformas no Brasil mostra que a China já não exporta apenas mercadorias.

Ela começa a exportar também tecnologia, algoritmos, plataformas digitais, sistemas logísticos e modelos de negócios.
Essa talvez seja uma das mudanças mais importantes — e menos percebidas — da nova presença chinesa.

A logística por trás da expansão
Existe ainda uma infraestrutura quase invisível ao consumidor.
Por trás de uma compra realizada em uma plataforma digital existem sistemas de pagamento, centros de distribuição, transporte internacional, desembaraço aduaneiro, armazenagem, classificação de mercadorias e entrega de última milha.

Empresas ligadas ao ecossistema chinês também avançam nessa área.
Cainiao, vinculada ao ecossistema Alibaba, e operadores como a J&T Express exemplificam a crescente presença asiática nas cadeias logísticas relacionadas ao comércio eletrônico.

Isso possui enorme importância estratégica.
No comércio digital, não basta oferecer o produto mais barato. É necessário entregar rapidamente.
Quem domina informação, estoque, distribuição e logística consegue transformar uma compra realizada a milhares de quilômetros de distância em uma experiência cada vez mais próxima de uma compra doméstica.

Energia, mineração e infraestrutura
Enquanto veículos, restaurantes e aplicativos tornam a presença chinesa mais visível para o consumidor, outra transformação ocorre longe das vitrines.
Empresas chinesas mantêm forte interesse em energia elétrica, geração renovável, transmissão, petróleo, mineração, infraestrutura e minerais críticos.
Esses setores estão diretamente relacionados às grandes transformações da economia mundial.
Cobre, níquel, lítio, baterias, energia solar e eólica, armazenamento de energia e redes elétricas serão componentes fundamentais da transição energética.

O Brasil possui recursos naturais, território, produção de alimentos, disponibilidade de energia renovável e um grande mercado consumidor.
A China possui capital, tecnologia, capacidade industrial e escala.
Essa combinação explica boa parte do interesse crescente das empresas chinesas pelo Brasil.

Quando juntamos as peças
Uma fábrica de automóveis na Bahia.
Outra operação industrial em São Paulo.
Uma rede chinesa de alimentação abrindo lojas.
Um aplicativo disputando o mercado de delivery.
Uma empresa logística entregando produtos comprados pela internet.
Investimentos em energia, mineração e infraestrutura.
Observados individualmente, parecem negócios independentes.

Quando juntamos as peças, entretanto, surge uma transformação muito maior.
A relação Brasil-China está deixando de ser predominantemente comercial para tornar-se também industrial, tecnológica, financeira, digital, logística e voltada diretamente ao consumidor.
E isso está acontecendo em velocidade surpreendente.

O Brasil precisa ter estratégia
A questão não deve ser simplesmente considerar a presença chinesa positiva ou negativa.
A questão relevante é: qual será a estratégia brasileira diante dessa transformação?
Investimentos estrangeiros podem gerar empregos, aumentar a competição, introduzir tecnologias e modernizar setores da economia. Ao mesmo tempo, sua contribuição de longo prazo dependerá da capacidade brasileira de transformar esses investimentos em desenvolvimento de fornecedores, engenharia, pesquisa, inovação, qualificação profissional e maior valor agregado produzido no país.

No setor automobilístico, por exemplo, não basta montar veículos. O Brasil deve buscar participação nas cadeias de baterias, componentes, software e engenharia.
Na energia e mineração, não deveríamos permanecer apenas como fornecedores de recursos naturais.

No comércio eletrônico e na logística, empresas brasileiras precisam compreender como participar das novas cadeias.
E nossas indústrias precisam observar não somente a China como mercado, mas também as empresas chinesas como novos concorrentes, fornecedores, investidores e potenciais parceiros.

Uma nova China está chegando ao Brasil
Há vinte anos, a China estava presente no Brasil principalmente nos navios carregados de soja e minério.
Depois passou a estar nas máquinas, equipamentos, celulares e produtos eletrônicos.
Agora está também nos carros que circulam pelas cidades, nas lojas dos shopping centers, nos aplicativos de delivery, nas compras realizadas pelo celular e na logística que coloca uma mercadoria na porta de nossas casas.

É uma mudança profunda.
A China não está abandonando seu interesse pelas commodities brasileiras. Está acrescentando novas camadas à relação.
Durante décadas perguntamos quanto o Brasil poderia vender para a China.
Agora precisamos acrescentar outra pergunta:
como o Brasil pretende se posicionar diante da rápida expansão das empresas, tecnologias, marcas e investimentos chineses dentro de sua própria economia?

Esse é o movimento silencioso e rápido que precisamos compreender.
Porque a China já não está apenas comprando do Brasil ou vendendo para o Brasil.
Ela está investindo, produzindo, financiando, vendendo, entregando e disputando o consumidor brasileiro.
E tudo indica que esse movimento está apenas começando.

Henry Uliano Quaresma é CEO da Brasil Business Partners, Conselheiro da Associação de Comércio Exterior do Brasil(AEB) e integra a Câmara Brasileira de Comércio Exterior da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC). Atuou como Diretor Executivo da Federação das Indústrias do Estado de Santa Catarina (FIESC), onde participou ou coordenou mais de 90 missões empresariais internacionais em mais de 50 países, fortalecendo a inserção global da indústria.
Sua trajetória combina experiência no setor privado, no governo e no meio acadêmico, tendo atuado como professor universitário, executivo industrial e gestor público. É engenheiro, com MBA em Administração Global pela Universidade Independente de Lisboa, especialização em Marketing pela FGV e formação executiva em Estratégia e Gestão pela Wharton School (EUA) e pela INSEAD (França).
Autor de artigos e livros de referência, destaca-se a obra “O Fator China: Oportunidades e Desafios” (2024), amplamente reconhecida no meio empresarial, além dos e-books “Internacionalização Acelerada” (2025) e “Inovação na China” (2025).
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