Mudanças de comportamento podem esconder sofrimento e precisam ser levadas a sério, confira o artigo na íntegra

Falar sobre saúde mental na infância e na adolescência exige atenção ao que nem sempre é dito. O sofrimento pode aparecer em mudanças de comportamento, isolamento, irritabilidade, queda no rendimento escolar, alterações no sono, perda de interesse por atividades antes prazerosas ou dificuldade de explicar o que está acontecendo. Quando esses sinais são tratados apenas como “fase”, podemos perder uma oportunidade importante de cuidado.

Em Santa Catarina, os números reforçam a dimensão desse desafio. Segundo o Infográfico Setembro Amarelo 2025, da Diretoria de Vigilância Epidemiológica de Santa Catarina (DIVE/SES-SC), com dados do Sistema de Informação de Agravos de Notificação (SINAN), do Sistema de Informação sobre Mortalidade (SIM) e do IBGE, o Estado registrou 9.082 notificações de violência autoprovocada em 2024. Os dados são preliminares e ajudam a dimensionar uma realidade que precisa ser observada para além das estatísticas.

Por trás de cada registro existe uma história, uma família e, muitas vezes, sinais que não foram compreendidos a tempo. No caso de crianças e adolescentes, isso exige um olhar ainda mais cuidadoso, porque nem sempre existe repertório emocional para dizer “não estou bem”. O sofrimento pode aparecer no corpo, no comportamento, na aprendizagem, nas relações familiares ou no ambiente escolar.

É nesse ponto que a avaliação neuropsicológica pode contribuir. Na minha prática, não a vejo como um documento destinado apenas a apresentar resultados ou confirmar um diagnóstico. Uma avaliação bem conduzida precisa ajudar a compreender como aquela criança ou adolescente funciona: como aprende, onde estão suas potencialidades, quais dificuldades estão presentes e que habilidades precisam ser desenvolvidas.

Esse processo permite investigar aspectos como atenção, memória, funções executivas, linguagem, aprendizagem, comportamento e funcionamento emocional, sempre considerando a história e o contexto de vida. A partir dessa compreensão, consigo traçar objetivos terapêuticos individualizados e orientar os próximos passos, inclusive quando há necessidade de encaminhamento para psicólogo, psiquiatra, fonoaudiólogo, terapeuta ocupacional, psicopedagogo ou outros profissionais.

A avaliação neuropsicológica, no entanto, não atua de maneira isolada. Diante de autoagressões, falas recorrentes de desesperança, sofrimento emocional intenso ou mudanças importantes de comportamento, é fundamental buscar atendimento especializado. A neuropsicologia integra essa rede de cuidado ao ajudar a organizar informações que, muitas vezes, chegam fragmentadas à família, à escola e aos diferentes profissionais envolvidos.

O Setembro Amarelo também nos lembra que a prevenção não começa apenas quando uma situação se torna grave. Ela está na capacidade dos adultos de perceber mudanças, fazer perguntas, ouvir sem julgamento e procurar ajuda antes que o sofrimento se intensifique.

Famílias e educadores têm um papel fundamental nesse processo. Não podemos esperar que uma criança ou um adolescente consiga pedir ajuda da mesma maneira que um adulto. É preciso observar, escutar e levar mudanças persistentes a sério.

Uma avaliação neuropsicológica ganha sentido quando as informações obtidas ajudam a compreender as necessidades daquela criança ou adolescente e orientam caminhos possíveis para o cuidado e o desenvolvimento. Quanto mais cedo identificamos o que está por trás de uma dificuldade emocional, comportamental ou de aprendizagem, maiores são as possibilidades de construir estratégias adequadas para cada caso.

Em saúde mental, perceber antes, compreender melhor e agir com responsabilidade pode transformar trajetórias. Nenhuma mudança importante de comportamento deve ser tratada apenas como uma fase quando há sinais de que aquela criança ou adolescente está sofrendo. Escutar hoje pode fazer toda a diferença no futuro.

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