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Henry Uliano Quaresma, fala sobre segurança jurídica, estabilidade regulatória, concessões, parcerias público-privadas e atração de capital passam, portanto, a ter importância ainda maior. (Fotos: Divulgação )
Confira o artigo que sugere reflexão sobre o momento atual, lembrando que o desenvolvimento de um país não pode ser pensado apenas dentro do calendário eleitoral.
As eleições de 2026 definirão os rumos políticos do Brasil para os próximos quatro anos. Para a economia, porém, o verdadeiro desafio começará quando as urnas forem fechadas.
É natural que, durante uma campanha eleitoral, as atenções estejam concentradas nos candidatos, nas pesquisas e nas disputas políticas. Mas quem acompanha há muitos anos o setor produtivo, o comércio exterior e o ambiente internacional sabe que o desenvolvimento de um país não pode ser pensado apenas dentro do calendário eleitoral.
Uma fábrica, um porto, uma ferrovia, uma linha de transmissão, um novo mercado externo ou um grande projeto de infraestrutura são investimentos que atravessam governos. Empresas tomam decisões olhando cinco, dez ou vinte anos à frente.
É com esse horizonte que deveríamos olhar para o Brasil a partir de 2027.
Temos uma economia que demonstra capacidade de resistência, reservas internacionais expressivas, sistema financeiro sólido, agricultura altamente competitiva, uma base industrial relevante, grande mercado consumidor e uma combinação de recursos naturais e energéticos que poucos países possuem.
O Fundo Monetário Internacional projeta crescimento de 2,4% para o Brasil em 2026, 2,2% em 2027 e algo próximo de 2,5% no médio prazo.
Não é um cenário de estagnação. Mas é pouco diante do potencial brasileiro.
Esse é, a meu ver, o ponto central da discussão: o problema do Brasil não é a falta de ativos. É nossa dificuldade histórica de transformá-los em produtividade, investimento, competitividade e crescimento sustentado.
A questão fiscal não poderá continuar sendo adiada
Um dos primeiros desafios será encontrar uma trajetória sustentável para as contas públicas.
Esse debate precisa sair do campo ideológico.
Um país precisa financiar educação, saúde, segurança, infraestrutura e políticas sociais. Precisa também investir no futuro e proteger os mais vulneráveis. Mas nenhuma sociedade consegue ampliar indefinidamente suas despesas acima da capacidade de financiá-las.
Quando isso acontece, a consequência aparece na dívida pública.
E quando cresce a dúvida sobre a trajetória da dívida, aumenta o custo de financiamento do Estado. O problema, então, deixa de ser apenas do governo.
Chega à indústria que precisa financiar uma máquina, ao empresário que necessita de capital de giro, ao produtor rural que precisa investir e à família que pretende financiar um imóvel.
Por isso, responsabilidade fiscal não deve ser confundida com uma política de cortes indiscriminados.
Trata-se de definir prioridades, melhorar a qualidade do gasto, avaliar despesas, subsídios e benefícios tributários e recuperar a capacidade de investimento do Estado.
Responsabilidade fiscal também é política de desenvolvimento.
O custo do dinheiro ainda limita nossa competitividade
Poucos fatores prejudicam tanto a competitividade brasileira quanto o custo do capital.
Ao longo de inúmeras missões empresariais internacionais, pude acompanhar empresas e ambientes produtivos muito diferentes. Uma diferença sempre chama atenção: as condições disponíveis para financiar máquinas, pesquisa, automação, inovação e expansão.
Empresas asiáticas, europeias e norte-americanas frequentemente conseguem financiar seus investimentos em condições muito mais favoráveis do que as encontradas no Brasil.
Essa diferença aparece diretamente no preço final e na capacidade de competir.
Não podemos exigir que uma indústria brasileira dispute mercados internacionais em igualdade de condições quando seu custo financeiro é várias vezes superior ao de muitos de seus concorrentes.
Naturalmente, juros não caem de maneira sustentável por decreto.
Juros estruturalmente menores dependem de inflação controlada, equilíbrio fiscal, confiança e aumento da produtividade.
Esse será um dos grandes desafios dos próximos anos: construir as condições para que o Brasil deixe de conviver permanentemente com um custo de capital incompatível com suas ambições de crescimento.
Precisamos falar mais de investimento
Existe um indicador que deveria receber muito mais atenção no debate econômico: a taxa de investimento.
Nenhum país sustenta crescimento elevado por longos períodos apenas estimulando consumo.
É preciso ampliar a capacidade de produzir.
O Brasil ainda investe pouco para uma economia emergente com enormes necessidades de infraestrutura.
Precisamos ampliar e modernizar rodovias, ferrovias, portos, saneamento, geração e transmissão de energia, telecomunicações e infraestrutura digital.
Mas também precisamos investir dentro das empresas.
Inteligência artificial, robótica, automação, manufatura avançada e digitalização estão transformando a produção mundial em uma velocidade impressionante.
Essa transformação não pertence mais ao futuro. Já está acontecendo.
A questão para a indústria brasileira é saber se conseguirá incorporar essas tecnologias rapidamente o suficiente para aumentar sua produtividade.
Grande parte desses investimentos dependerá do setor privado. Segurança jurídica, estabilidade regulatória, concessões, parcerias público-privadas e atração de capital passam, portanto, a ter importância ainda maior.
Capital existe no mundo.
A disputa é por onde ele será investido.
A reforma tributária será testada na prática
Outro processo de grande impacto será a implementação da reforma tributária.
Durante décadas, as empresas brasileiras conviveram com um sistema excessivamente complexo. Gastamos recursos, tempo e capacidade gerencial administrando impostos quando deveríamos estar concentrados em produzir, inovar, vender e exportar.
A reforma cria uma oportunidade de mudar essa realidade.
Mas uma transformação dessa dimensão também exigirá cuidado.
Haverá custos de adaptação, mudanças na distribuição da carga entre setores e alterações importantes na forma como as empresas organizam suas operações.
O resultado deverá ser avaliado por critérios objetivos.
Teremos um sistema mais simples? Haverá maior segurança jurídica? Diminuirão as distorções? Investir ficará mais fácil? Exportar ficará mais competitivo?
Se essas respostas forem positivas, a reforma terá contribuído para algo que o Brasil necessita desesperadamente: produtividade.
Enquanto discutimos nossos problemas, o mundo está mudando
Talvez este seja um dos pontos que mais deveriam nos preocupar.
O Brasil tem uma tendência histórica de olhar excessivamente para dentro.
Enquanto consumimos enorme energia discutindo nossos problemas domésticos, uma transformação extraordinária acontece no mundo.
A inteligência artificial está alterando empresas e profissões. A automação está redesenhando fábricas. A transição energética movimenta investimentos gigantescos. A disputa tecnológica entre Estados Unidos e China reorganiza cadeias produtivas. Minerais críticos tornaram-se ativos estratégicos. Segurança energética e alimentar voltou ao centro das preocupações internacionais.
A própria globalização está mudando.
Ela não terminou. Tornou-se mais complexa.
Durante muito tempo, eficiência e preço foram os principais critérios para organizar cadeias internacionais de produção. Hoje, segurança de fornecimento, energia, tecnologia, logística e geopolítica também pesam nas decisões.
Essa mudança pode representar uma oportunidade extraordinária para o Brasil.
Mas oportunidades internacionais não ficam esperando indefinidamente.
A China continuará no centro dessa transformação
Não é possível compreender a economia das próximas décadas sem compreender a China.
A relação econômica entre Brasil e China tornou-se extraordinariamente importante, mas precisa avançar para uma nova etapa.
Durante anos construímos uma relação baseada principalmente na complementaridade: o Brasil fornecendo alimentos, minério, petróleo e outras matérias-primas, enquanto importava grande quantidade de produtos industriais.
Esse modelo continuará relevante, mas não deveria ser suficiente.
Precisamos transformar comércio em investimento, investimento em produção e produção em desenvolvimento tecnológico.
Ao mesmo tempo, seria um erro ignorar a velocidade com que a indústria chinesa avançou.
Veículos elétricos, baterias, painéis solares, máquinas, equipamentos, produtos químicos e eletrônicos demonstram que a China deixou há muito tempo de competir apenas por custos baixos.
Hoje compete em escala, tecnologia, inovação, velocidade e financiamento.
A China é, ao mesmo tempo, mercado, investidor, parceiro tecnológico e concorrente industrial.
Compreender essas quatro dimensões é fundamental para construir uma relação econômica madura, baseada nos interesses brasileiros.
Uma oportunidade que poucos países possuem
A reorganização da economia mundial pode abrir uma janela histórica para o Brasil.
O mundo procura alimentos, energia, minerais, segurança de suprimentos e alternativas para reduzir emissões de carbono.
Poucos países conseguem oferecer tudo isso simultaneamente.
O Brasil consegue.
Temos petróleo, gás, hidreletricidade, etanol, biomassa, biometano, energia eólica e solar. Temos minério de ferro e minerais estratégicos. Temos agricultura competitiva, água, território, biodiversidade e um grande mercado consumidor.
Mas possuir recursos naturais nunca garantiu desenvolvimento.
A diferença está na capacidade de agregar valor.
O desafio não deveria ser apenas aumentar a quantidade de matérias-primas exportadas, mas utilizar nossas vantagens para desenvolver novas cadeias produtivas.
É nesse contexto que ganha importância o conceito de power-shoring: aproximar atividades industriais de regiões onde exista energia segura, competitiva e de menor intensidade de carbono.
O Brasil reúne condições excepcionais para disputar esses investimentos.
Mas existe uma distância enorme entre potencial e realização.
Precisamos de infraestrutura, disponibilidade de energia, segurança jurídica, licenciamento eficiente, financiamento, qualificação profissional e capacidade de execução.
Exportar precisa fazer parte da estratégia de desenvolvimento
Outro desafio é aumentar a inserção internacional da economia brasileira.
O Brasil continua relativamente pouco integrado ao comércio mundial quando consideramos o tamanho de sua economia.
Exportar deveria ser parte de uma estratégia nacional de desenvolvimento.
Precisamos ampliar acordos comerciais, abrir mercados, reduzir custos logísticos, fortalecer financiamento e seguro de crédito à exportação e facilitar a internacionalização das pequenas e médias empresas.
Existe ainda um efeito frequentemente subestimado.
Exportar melhora empresas.
Quem entra no mercado internacional precisa elevar padrões de qualidade, buscar certificações, conhecer novos concorrentes, incorporar tecnologia e melhorar a gestão.
Internacionalização também é política de produtividade.
Da mesma forma, precisamos diversificar mercados.
China, Estados Unidos, União Europeia e Mercosul continuarão fundamentais. Mas Índia, Sudeste Asiático, Oriente Médio e África ganharão importância crescente nas próximas décadas.
Não precisamos escolher entre mercados.
Precisamos estar presentes onde existam oportunidades para produtos, serviços, investimentos e empresas brasileiras.
Santa Catarina diante de um novo ciclo econômico
Santa Catarina reúne características que a colocam em posição diferenciada no Brasil.
Temos uma economia diversificada, forte cultura empreendedora, presença importante no comércio exterior e empresas competitivas em alimentos, máquinas e equipamentos, metalmecânico, têxtil, cerâmica, móveis, equipamentos elétricos, tecnologia e serviços.
Essa diversificação sempre foi uma das grandes forças da economia catarinense.
Mas o modelo que nos trouxe até aqui precisará evoluir.
O Estado já não pode sustentar sua competitividade apenas no empreendedorismo e na eficiência das empresas. Alguns dos principais obstáculos ao crescimento encontram-se hoje fora dos portões das fábricas.
A infraestrutura talvez seja o exemplo mais evidente.
Santa Catarina produz e movimenta cargas em volumes muito superiores àqueles para os quais parte de sua infraestrutura foi dimensionada. Rodovias congestionadas, acessos portuários, ausência de uma integração ferroviária adequada e necessidades crescentes de energia e logística começam a afetar diretamente a competitividade.
Não adianta uma empresa investir milhões em automação para economizar minutos dentro da fábrica e depois perder horas transportando sua produção.
Precisamos pensar a infraestrutura catarinense para os próximos vinte ou trinta anos.
Isso significa integrar áreas industriais, rodovias, ferrovias, portos e aeroportos e antecipar a demanda energética de uma economia cada vez mais eletrificada, automatizada e digital.
Outro desafio é aproximar definitivamente tecnologia e indústria.
Santa Catarina construiu um dos ecossistemas tecnológicos mais interessantes do país. O próximo passo é ampliar sua integração com a indústria tradicional.
Não deveríamos enxergar esses setores como dois mundos separados.
Uma indústria têxtil utilizando inteligência artificial continua sendo indústria. Uma empresa metalmecânica robotizada continua sendo indústria. Uma agroindústria utilizando sensores, dados e automação continua sendo agroindústria.
O que muda é a produtividade.
Santa Catarina também precisa aprofundar sua internacionalização e diversificar mercados. Além dos parceiros tradicionais, precisamos olhar com maior atenção para a Ásia, onde estará parcela crescente do consumo e da produção mundial.
Há ainda oportunidades importantes em novas cadeias relacionadas à energia, ao biogás e biometano, à economia circular, à descarbonização, à tecnologia e ao aproveitamento industrial de resíduos.
Santa Catarina chegou até aqui pela capacidade de seus empreendedores, pela cultura do trabalho, por uma indústria construída ao longo de gerações e por gestores públicos competentes.
Essas vantagens continuam fundamentais.
Mas precisamos acrescentar a elas infraestrutura, inovação, tecnologia, qualificação profissional, energia e uma inserção internacional ainda mais ambiciosa.
O desafio é deixar de planejar apenas para resolver os gargalos de hoje e começar a preparar Santa Catarina para a economia que existirá daqui a vinte anos.
Depois das urnas começa o verdadeiro desafio
Os mercados provavelmente reagirão ao resultado eleitoral em questão de horas.
A economia real trabalha com outro relógio.
Empresas que decidem investimentos para cinco, dez ou vinte anos observarão o que acontecerá depois: a estratégia fiscal, a trajetória da dívida, o ambiente para investimentos, a implementação da reforma tributária, as concessões, a política industrial, o comércio exterior e a posição brasileira diante das grandes transformações internacionais.
É aí que estará o verdadeiro teste.
O Brasil precisa voltar a pensar estrategicamente.
Precisamos discutir não apenas como crescer no próximo ano, mas onde queremos estar em 2035 ou 2040.
Que indústria queremos ter?
Que participação queremos ocupar no comércio mundial?
Como utilizaremos inteligência artificial e automação para aumentar nossa produtividade?
Qual será nosso papel na transição energética?
Como transformaremos nossa riqueza mineral em cadeias produtivas de maior valor agregado?
Como prepararemos nossos jovens para profissões que estão sendo profundamente modificadas pela tecnologia?
São perguntas que ultrapassam partidos, governos e mandatos.
Depois de décadas acompanhando empresas, governos e transformações econômicas em diferentes partes do mundo, uma conclusão me parece cada vez mais clara: os países que avançam são aqueles capazes de construir estratégias que sobrevivem aos ciclos políticos.
Governos passam. O desenvolvimento precisa continuar.
O Brasil possui praticamente todos os ativos necessários para ocupar uma posição muito mais relevante na economia mundial. Temos alimentos, energia, minerais, indústria, tecnologia, território, mercado interno e capacidade empresarial.
Não nos falta potencial.
O que nos falta é transformar esse potencial em uma estratégia consistente de produtividade, competitividade e desenvolvimento.
Por isso, quando terminar a eleição de 2026, a pergunta mais importante não será apenas quem venceu.
Será outra:
o que faremos, a partir do dia seguinte, para construir o Brasil que queremos nas próximas décadas?
É aí que começa o verdadeiro desafio.
(*) Henry Uliano Quaresma é CEO da Brasil Business Partners, Conselheiro da Associação de Comércio Exterior do Brasil(AEB) e integra a Câmara Brasileira de Comércio Exterior da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC). Atuou como Diretor Executivo da Federação das Indústrias do Estado de Santa Catarina (FIESC), onde participou ou coordenou mais de 90 missões empresariais internacionais em mais de 50 países, fortalecendo a inserção global da indústria.
Sua trajetória combina experiência no setor privado, no governo e no meio acadêmico, tendo atuado como professor universitário, executivo industrial e gestor público. É engenheiro, com MBA em Administração Global pela Universidade Independente de Lisboa, especialização em Marketing pela FGV e formação executiva em Estratégia e Gestão pela Wharton School (EUA) e pela INSEAD (França).
Autor de artigos e livros de referência, destaca-se a obra “O Fator China: Oportunidades e Desafios” (2024), amplamente reconhecida no meio empresarial, além dos e-books “Internacionalização Acelerada” (2025) e “Inovação na China” (2025).
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