Confira o artigo de Mylena Cooper - CEO da The Diamond, tanatóloga e especialista em experiências de despedida e memorialização

 

Por que ainda associamos memória à morte? Em algum momento, convencionamos que guardar algo de quem amamos é um gesto para depois da perda: uma fotografia, uma roupa, uma mecha de cabelo. Mas, se o vínculo existe agora, por que esperar a ausência para decidir que ele merece ser preservado?

Essa pergunta ganha outra dimensão quando falamos dos animais. Cães, gatos e outros pets deixaram de ocupar apenas o espaço de “animais de estimação” e passaram a integrar a rotina, as viagens, as fotografias e as decisões de muitas famílias. No Brasil, são cerca de 160 milhões de animais de estimação, presentes em mais da metade dos lares, segundo o Ministério do Turismo. O mercado pet movimentou R$ 75,4 bilhões em 2024, crescimento de 9,6% ante 2023, segundo a Abempet. Mas o dado mais interessante talvez não esteja no faturamento. Está na forma como passamos a reconhecer esses vínculos.

É nesse contexto que tenho percebido crescer a procura por diamantes produzidos a partir de pelos de animais. E há uma diferença importante: não é preciso esperar que o pet morra.

Pelos de cães, gatos, cavalos e coelhos, além de crinas e plumagens de aves, podem fornecer material orgânico rico em carbono, elemento utilizado na produção de diamantes em laboratório. No processo realizado pela The Diamond, são utilizados de 1 a 5 gramas de pelos, crinas ou plumagens. Quando a quantidade é insuficiente, outros elementos simbólicos podem ser incorporados ao processo.

A tecnologia é relevante, mas ela explica apenas uma parte dessa escolha. A outra está na pergunta: por que alguém transforma o pelo de um animal vivo em uma pedra que pode durar gerações?

Há quem guarde o primeiro pelo cortado do cachorro. Há quem conserve durante anos aquilo que ficou na escova. E há famílias que preferem criar o diamante enquanto o animal está saudável justamente para não associar o objeto à morte. Nesse caso, a joia deixa de ser uma lembrança do que acabou e passa a representar algo que ainda está acontecendo.

Isso também desafia a ideia de que memória precisa nascer do luto. Somos acostumados a homenagear depois da perda, a preservar quando percebemos que algo não voltará. Mas por que a permanência precisa começar apenas quando chega a ausência?

Parte da matéria-prima utilizada para a produção do diamante vem do carbono extraído daquele animal. A pedra pode depois ser aplicada em anéis, pingentes ou brincos, mas o formato é secundário. O que realmente está sendo preservado é o significado atribuído àquela relação.
Alguém pode considerar exagero transformar pelos de um cachorro em diamante. É uma reação legítima. Mas também vale perguntar por que achamos natural eternizar relações humanas em alianças, fotografias, tatuagens e objetos herdados, enquanto ainda estranhamos quando o mesmo desejo de permanência envolve um animal.

Não acredito que um vínculo precise de uma joia para ser verdadeiro. Para algumas pessoas, a lembrança será uma fotografia. Para outras, uma coleira guardada. Para outras, nada material. O ponto é outro: estamos criando símbolos para relações que, poucas décadas atrás, sequer eram reconhecidas socialmente com essa profundidade.

Talvez os diamantes feitos a partir de pelos continuem sendo uma escolha de poucos. Talvez se tornem cada vez mais comuns. Mas a pergunta que eles colocam é maior do que a própria joia: estamos apenas encontrando novas formas de lembrar dos nossos animais ou começando a admitir que algumas das relações mais importantes da nossa vida não são necessariamente humanas?

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