Confira o artigo da Jornalista e presidente eleita da Associação Catarinense de Imprensa

O laboratório de ideias Pew Research Center, referência mundial em pesquisas comparadas de opinião pública, divulgou em julho o último levantamento global realizado entre fevereiro e maio de 2026, com mais de 42 mil pessoas, em 36 países. Dentre outros dados, o instituto registrou uma mudança relevante: nos países pesquisados, a China passou a ser vista de forma mais favorável pela população pesquisada do que os Estados Unidos.

A avaliação positiva dos Estados Unidos caiu de 58% em 2023 para 36% neste ano, enquanto a China subiu de 32% para 46%, nos 20 países que são acompanhados anualmente. O mesmo levantamento mediu o grau de confiança nas decisões de Donald Trump e Xi Jinping em assuntos globais. Embora a confiança nos dois líderes seja baixa em termos gerais, os dados indicam que, em diversos países, Xi Jinping aparece hoje à frente de Trump nesse indicador.

O dado interessa para além da disputa geopolítica. Países, governos, empresas, entidades e instituições não são percebidos apenas por sua história, sua estrutura, seus recursos ou sua força objetiva. São percebidos também pelo modo como suas lideranças ocupam o espaço público. O líder não é a instituição inteira, mas muitas vezes é por meio dele que passa a ser interpretada.

Uma instituição pode ter trajetória sólida, equipes qualificadas, entregas consistentes e relevância reconhecida. Ainda assim, sua reputação pode ser fortalecida ou
fragilizada pelo comportamento de quem a representa. O tom adotado, a relação com os fatos, a previsibilidade das decisões, a capacidade de escuta, o respeito aos limites institucionais e a maneira de lidar com divergências passam a integrar a percepção pública sobre aquilo que se lidera.

Reputação institucional é uma construção coletiva formada ao longo do tempo, pela repetição de condutas, pela coerência e pelas experiências concretas dos diferentes públicos com a instituição. Em ambientes de alta exposição, o líder funciona como uma síntese da instituição que representa. Seu comportamento simplifica, para o bem ou para o mal, uma realidade institucional que costuma ser complexa. Por isso, o perfil e, especialmente, o comportamento de quem lidera é ponto estratégico.

Não se trata de carisma. Carisma pode produzir atenção, mobilizar simpatias e criar identificação momentânea. Mas atenção não é confiança. A confiança depende de consistência. Exige algum grau de previsibilidade, responsabilidade, domínio da palavra pública e capacidade de sustentar decisões sem transformar toda divergência em conflito pessoal.

Também não se trata de comunicação. A comunicação pode organizar mensagens, dar clareza ao posicionamento, reduzir ruídos e tornar mais compreensível aquilo que a instituição faz. Mas não substitui conduta. Quando há distância persistente entre o que se afirma e o que se pratica, a liderança deixa de ser ativo e passa a ser risco. A pesquisa do Pew Research Center mostra que reputação não é patrimônio permanente. Nem mesmo potências globais estão protegidas da erosão de confiança.

Pode-se levar anos construindo boa reputação e credibilidade. Mas, em pouco tempo tudo pode ruir se a confiança for perdida. No campo institucional, isso vale para todos os níveis. Um prefeito, um presidente de entidade, dirigente empresarial, parlamentar, magistrado ou um gestor público comunica pelo modo como decide, reage, reconhece erros, enfrenta críticas, trata adversários, cumpre compromissos e respeita a inteligência dos públicos com os quais
se relaciona.

Quando a liderança transmite serenidade, clareza e responsabilidade, ajuda a estabilizar percepções. Quando produz ruído permanente, pode contaminar até entregas relevantes. Quando confunde visibilidade com credibilidade, tende a superestimar a força da própria presença. Quando compreende que representa algo maior do que si mesma, protege a instituição inclusive de seus próprios impulsos.

Essa talvez seja uma das exigências mais difíceis da liderança contemporânea: entender que exposição não equivale a autoridade. Autoridade se reconhece na capacidade de conduzir, não apenas de aparecer; de explicar, não apenas de afirmar; de sustentar coerência, não apenas de ocupar espaço. Instituições precisam de lideranças visíveis, mas não reféns da própria imagem. Precisam de dirigentes capazes de dar rosto, voz e direção sem reduzir a instituição ao seu temperamento pessoal.

Precisam de comunicação, mas também de conduta compatível com a confiança que desejam construir. A reputação de uma instituição nunca depende apenas de quem a lidera. Mas passa, inevitavelmente, por essa liderança.

 

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