Confira o artigo do líder associativista do agronegócio

A agricultura brasileira atravessa um dos períodos mais desafiadores dos últimos anos. Preços deprimidos, custos elevados, margens reduzidas, juros altos, instabilidade climática e restrições ao crédito pressionam produtores, empresas rurais e toda a cadeia produtiva. O cenário exige prudência, capacidade de adaptação e compreensão dos ciclos que caracterizam os mercados de commodities.

A alternância entre expansão e retração não constitui novidade. O setor convive historicamente com um comportamento semelhante ao de uma montanha-russa, marcado por oscilações intensas e imprevisíveis. Entre 2021 e 2023, o agronegócio viveu um período excepcional, com preços favoráveis, custos relativamente estáveis, juros menores, valorização patrimonial e margens expressivas. A partir de 2025, esse alinhamento deu lugar a uma conjuntura adversa, formada por preços baixos, despesas elevadas, rentabilidade negativa e crédito caro.

Esses movimentos continuarão a existir. O diferencial está na capacidade de cada empreendimento de reconhecer, administrar e reduzir os riscos da atividade. Há riscos operacionais, ligados à produção, ao clima, aos preços e à logística, além dos macroeconômicos, relacionados à inflação, aos juros, ao câmbio e às políticas públicas. Parte deles pode ser mitigada com planejamento, seguro, diversificação, instrumentos financeiros e organização produtiva.

Também existem riscos de gestão, que envolvem estratégia, governança, controles, sucessão familiar e qualidade das decisões. Esses fatores estão sob responsabilidade direta das famílias empresárias e podem definir a resistência dos negócios diante das crises. Muitos empreendimentos ainda operam de forma intuitiva, concentrados na pessoa física e dependentes da experiência do fundador. Esse modelo sustentou o crescimento em outras fases, mas revela fragilidades diante da complexidade atual.

Para as famílias que ampliaram investimentos e endividamento durante o ciclo de prosperidade, o momento exige reorganização financeira, redução de dívidas, venda criteriosa de ativos, diálogo com credores e revisão das estruturas internas. Em situações mais graves, surgem renegociações, reestruturações e pedidos de recuperação judicial. O principal aprendizado consiste em evitar decisões baseadas na expectativa de continuidade das margens elevadas.

Em sentido oposto, produtores e empresas que preservaram reservas, mantiveram níveis prudentes de endividamento e adotaram controles mais rigorosos encontram oportunidades na crise. Ativos desvalorizados, novas parcerias e melhores condições de negociação podem abrir caminhos para um crescimento sustentável, desde que acompanhados de cautela, governança e análise técnica.

É nesse ambiente que o cooperativismo assume função decisiva. As cooperativas conhecem profundamente os desafios da produção agropecuária, em especial do segmento de grãos. Organizam produtores, prestam assistência, ampliam o acesso a tecnologias, estruturam a comercialização e criam estratégias para a conquista de mercados internos e externos. Também exercem uma defesa técnica competente do setor, fundamentada na realidade das propriedades e das comunidades rurais.

A atuação cooperativista reduz assimetrias, fortalece o poder de negociação, amplia a escala produtiva e oferece instrumentos para o enfrentamento de períodos adversos. Mais do que estruturas econômicas, as cooperativas constituem redes de confiança, conhecimento e apoio mútuo. Em momentos de instabilidade, essa capacidade coletiva torna-se ainda mais relevante.

A crise deve ser compreendida como alerta e oportunidade de transformação. Ela impõe disciplina, planejamento, profissionalização, governança, sucessão organizada e maior atenção aos riscos. Também prepara uma nova geração de gestores rurais, mais qualificada, resiliente e consciente das responsabilidades de atuar em um ambiente global competitivo.

O resultado poderá ser uma agricultura mais eficiente, tecnificada e preparada para os próximos ciclos. A concentração produtiva tende a avançar, mas o cooperativismo pode evitar a exclusão de pequenos e médios produtores, ao integrá-los a estruturas sólidas e competitivas. A próxima subida da montanha-russa virá, assim como novas descidas. Estará mais preparado quem compreender que prosperidade não dispensa prudência e que nenhuma crise precisa ser enfrentada de forma isolada.

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