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Marlene Fengler é secretária-geral da Assembleia Legislativa de Santa Catarina (Fotos: Divulgação)
Há mulheres que vivem sem desligar a mente um minuto sequer, que acordam já pensando nas contas, nas consultas, na escola dos filhos, no trabalho, na alimentação da casa, nos imprevistos e em tudo aquilo que ainda precisa ser resolvido antes do fim do dia. Mulheres que seguem funcionando mesmo cansadas, porque sentem que não têm o direito de parar. E, muitas vezes, fazem tudo isso sozinhas.
Os números mostram que essa realidade deixou de ser exceção no Brasil. Dados do Censo 2022 revelam que 49,1% dos lares brasileiros já têm mulheres como responsáveis pela família. Estudos da FGV apontam que o país chegou, no fim de 2024, a cerca de 41,3 milhões de mulheres chefes de família. O IBGE também identificou aproximadamente 7,8 milhões de mulheres vivendo com filhos sem a presença de um companheiro. Mas existe um grupo de mulheres que carrega uma sobrecarga ainda mais silenciosa e profunda: as mães atípicas.
São mães de crianças com autismo, TDAH, deficiência intelectual e outras condições que exigem cuidado permanente. Mulheres que vivem entre exames, consultas, crises sensoriais, filas de espera e o desgaste emocional de precisar lutar diariamente para garantir aquilo que deveria ser básico: acolhimento, respeito, inclusão e dignidade para os filhos.
Recentemente, ouvi o relato de duas mães atípicas que me procuraram pedindo apoio. Enquanto elas falavam sobre a rotina, o cansaço e as dificuldades, uma frase ficou ecoando dentro de mim: “a gente precisa ser forte o tempo inteiro.” E talvez exista pouca coisa mais dolorosa do que isso,porque ninguém consegue sustentar o peso do mundo todos os dias sem adoecer por dentro.
Pesquisas acadêmicas já indicam que o abandono paterno aumenta significativamente quando nasce uma criança com deficiência ou que necessita de cuidado contínuo. Um dos dados mais citados no Brasil, divulgado por entidades ligadas à maternidade atípica e mencionado em audiência pública na Câmara dos Deputados, aponta que entre 70% e 78% dos pais abandonariam a família antes de a criança completar cinco anos. É importante dizer que o país ainda não possui um levantamento nacional oficial do IBGE ou do Ministério da Saúde sobre esse índice específico, mas o fenômeno da sobrecarga materna e do afastamento paterno é amplamente reconhecido por pesquisadores e profissionais da área.
Um estudo da USP com mães de crianças autistas identificou relatos frequentes de abandono, esgotamento emocional e solidão. Outra pesquisa da UEMG concluiu que o diagnóstico da deficiência frequentemente intensifica o afastamento do pai e transfere quase todo o cuidado para a mãe.E isso produz consequências profundas,porqueessas mulheres não carregam apenas a rotina pesada do cuidado. Carregam também o medo constante do futuro, a insegurança financeira, a culpa, o preconceito e a exaustão emocional de precisar impedir, todos os dias, que o mundo desista dos seus filhos. E a angústia da incerteza sobre o futuro, quando elas não estiverem mais aqui para cuidar de seus filhos.
Muitas acabam criando redes paralelas de sobrevivência emocional, grupos de apoio, movimentos de acolhimento, espaços de troca e escuta onde conseguem, por alguns instantes, deixar de ser apenas aquelas que resolvem tudo para também serem cuidadas. E quando essas redes surgem, elas também revelam algo importante: a ausência histórica de políticas públicas capazes de oferecer suporte contínuo às famílias atípicas.
Falamos muito sobre inclusão, mas ainda avançamos pouco na inclusão verdadeira, porque a inclusão não significa apenas colocar uma criança dentro da escola. Inclusão exige preparo, profissionais capacitados, acesso a terapias, atendimento multidisciplinar e apoio real às famílias. Exige investimento público, políticas permanentes e uma rede de cuidado que enxergue também quem cuida, porque atrás de quase toda criança atípica existe uma mãe tentando sustentar emocionalmente uma estrutura inteira praticamente sozinha.
E talvez uma sociedade verdadeiramente humana comece no dia em que entendermos que cuidado também precisa alcançar quem cuida. Porque por trás de muitas crianças que necessitam de atenção especial existe uma mulher exausta tentando sustentar emocionalmente a própria família, muitas vezes sem apoio, sem descanso e sem o direito de fraquejar. Nenhuma mãe deveria precisar adoecer, se anular ou carregar o peso do mundo sozinha para provar o tamanho do seu amor.
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