-
Henry Uliano Quaresma é CEO da Brasil Business Partners e membro de conselhos de empresas e entidades empresariais. (Fotos: Divulgação)
A entrada em vigor do acordo entre Mercosul e União Europeia, em 1º maio de 2026, inaugura uma nova fase do comércio exterior brasileiro. Após mais de duas décadas de negociações, o tratado deixa de ser uma expectativa diplomática e passa a influenciar, de forma concreta, decisões empresariais, investimentos e estratégias de inserção internacional.
O que se inicia não é uma abertura abrupta, mas um processo estruturado, com cronograma de desgravação tarifária e previsibilidade. Ainda assim, o impacto é imediato em termos de sinalização econômica: o Brasil passa a operar com acesso preferencial a um dos mercados mais exigentes e sofisticados do mundo.
A dimensão do acordo é relevante. De um lado, a União Europeia, com PIB próximo de US$ 20 trilhões e elevado poder de consumo. De outro, o Mercosul, com cerca de US$ 3 trilhões, forte em recursos naturais e base industrial. No conjunto, são mais de 700 milhões de consumidores e aproximadamente US$ 23 trilhões em PIB, configurando um dos maiores espaços econômicos integrados do mundo.
O cronograma de redução tarifária foi desenhado para dar previsibilidade. A União Europeia promove uma abertura mais rápida, enquanto o Mercosul adota prazos mais longos, chegando a até 15 anos em setores sensíveis. Isso cria uma janela estratégica: empresas que se anteciparem terão vantagem competitiva relevante.
Na prática, os ganhos não serão homogêneos. Alguns setores brasileiros tendem a capturar benefícios de forma mais imediata:
O agronegócio é o principal destaque. Proteínas animais, café, açúcar, etanol, frutas e suco de laranja ampliam acesso a um mercado de alto valor, com previsibilidade e redução de barreiras. Trata-se de um avanço relevante, ainda que condicionado a cotas e exigências sanitárias rigorosas.
Na indústria, os ganhos são mais seletivos, mas estratégicos. Setores com maior valor agregado tendem a se beneficiar, como:
-máquinas e equipamentos
-autopeças e componentes
-produtos químicos e farmacêuticos
-madeira e papel e celulose
-alimentos processados com diferenciação
Além disso, há uma oportunidade indireta relevante: a redução de tarifas sobre máquinas e insumos europeus tende a acelerar a modernização da indústria brasileira, elevando produtividade e competitividade.
O setor de serviços também ganha espaço, especialmente em engenharia, tecnologia, logística e serviços ambientais, além de novas oportunidades em compras governamentais e investimentos.
Outro vetor central é a atração de investimentos. O Brasil passa a ser percebido como plataforma de acesso ao mercado europeu, o que pode estimular novos projetos industriais e a integração às cadeias globais de valor. Esse efeito, no entanto, dependerá diretamente do ambiente doméstico de negócios.
Do lado dos desafios, o acordo eleva o nível de exigência. A concorrência com produtos europeus será mais intensa, especialmente no mercado interno. Mais do que preço, o diferencial competitivo estará em qualidade, inovação e eficiência operacional.
As exigências regulatórias são outro ponto crítico. O acesso ao mercado europeu dependerá de:
-rastreabilidade de produtos
-conformidade sanitária e técnica
-padrões ambientais e de sustentabilidade
-práticas de governança
Isso deixa claro que o acordo não é apenas comercial — é também regulatório.
Para as empresas, o impacto é direto e exige ação prática. Alguns movimentos tornam-se prioritários:
-Mapear produtos com potencial de exportação e verificar enquadramento tarifário
-Dominar regras de origem, que serão determinantes para acesso aos benefícios
-Investir em certificações e adequação a normas europeias
-Revisar cadeias de suprimento, buscando eficiência e conformidade
-Avaliar parcerias estratégicas com empresas europeias
-Estruturar inteligência comercial voltada ao mercado europeu
Empresas que tratarem o acordo como agenda estratégica — e não apenas como oportunidade pontual — tendem a capturar ganhos de forma mais consistente.
Por fim, é importante destacar que o acordo, por si só, não garante resultados. Ele cria condições. A transformação dessas condições em crescimento dependerá de dois fatores: capacidade empresarial e evolução da agenda interna brasileira.
Infraestrutura logística, ambiente regulatório, custo Brasil e segurança jurídica seguem sendo determinantes. Sem avanços nessas áreas, parte do potencial pode se perder.
O acordo Mercosul–União Europeia reposiciona o Brasil no comércio internacional. Amplia acesso, mas também eleva o padrão de competição. A partir de agora, o diferencial não será apenas estar no mercado, mas ter capacidade real de competir nele.
Henry Uliano Quaresma é CEO da Brasil Business Partners e membro de conselhos de empresas e entidades empresariais. Atuou como Diretor Executivo da Federação das Indústrias do Estado de Santa Catarina (FIESC), onde participou ou coordenou mais de 90 missões empresariais internacionais em mais de 50 países, fortalecendo a inserção global da indústria.
Sua trajetória combina experiência no setor privado, no governo e no meio acadêmico, tendo atuado como professor universitário, executivo industrial e gestor público. É engenheiro, com MBA em Administração Global pela Universidade Independente de Lisboa, especialização em Marketing pela FGV e formação executiva em Estratégia e Gestão pela Wharton School (EUA) e pela INSEAD (França).
Autor de artigos e livros de referência, destaca-se a obra “O Fator China: Oportunidades e Desafios” (2024), amplamente reconhecida no meio empresarial, além dos e-books “Internacionalização Acelerada” (2025) e “Inovação na China” (2025).
[email protected]
Tags
- Acordo
- brasil
- comércio
- exportação
- Mercosul
- União Europeia
Deixe seu comentário