Os conflitos recentes no Oriente Médio, somados à crescente rivalidade entre grandes potências, estão produzindo algo maior do que instabilidade momentânea. O que está em curso é uma mudança profunda na forma como a economia global se organiza.

Essa percepção não vem apenas da análise à distância. No início da escalada do conflito, estive retido nos Emirados Árabes Unidos por alguns dias, em função do fechamento do espaço aéreo. A experiência, além de pessoalmente desafiadora, permitiu acompanhar de perto os desdobramentos imediatos de uma crise geopolítica: cancelamentos em massa, desorganização logística, incerteza generalizada e decisões sendo tomadas em tempo real por governos, empresas e companhias aéreas.

Ali ficou evidente que, em um mundo altamente conectado, os efeitos da guerra se propagam com velocidade impressionante — muito além do campo de batalha.

Durante décadas, eficiência e custo foram os principais critérios das decisões econômicas. Hoje, segurança, resiliência e posicionamento geopolítico passaram a pesar tanto quanto — ou mais.

E isso já está impactando praticamente todos os setores.

O primeiro efeito é sentido na energia. O petróleo volta ao centro das atenções, não apenas como commodity, mas como instrumento estratégico. Qualquer tensão na região eleva o risco percebido e, com isso, os preços. O resultado aparece rapidamente: custos mais altos para a indústria, transporte mais caro e pressão inflacionária persistente. Ao mesmo tempo, países com matriz energética mais estável passam a ter vantagem competitiva clara.

Na sequência, a logística entra em tensão. Rotas estratégicas tornam-se vulneráveis, seguros sobem, prazos se alongam. Empresas que antes operavam com cadeias globais altamente otimizadas agora se veem obrigadas a rever estruturas, diversificar fornecedores e, em muitos casos, encurtar distâncias. Isso aumenta custos, mas reduz riscos — e esse equilíbrio passa a ser central nas decisões.

A indústria sente esse movimento de forma direta. Setores intensivos em energia, como siderurgia, química e fertilizantes, operam sob pressão crescente. Margens comprimem, investimentos são revistos e a busca por eficiência energética ganha prioridade. Mais do que isso, começa a ocorrer uma realocação produtiva: empresas passam a escolher onde produzir com base no custo e na segurança da energia disponível.

No agronegócio, o cenário é ambíguo. De um lado, custos mais altos de insumos e logística. De outro, preços internacionais mais elevados, impulsionados pela insegurança global. Para o Brasil, isso abre oportunidades importantes, mas exige gestão mais sofisticada de risco. A segurança alimentar voltou ao centro da agenda mundial.

O comércio internacional também muda de natureza. Deixa de ser apenas econômico e passa a ser claramente político. Acordos, restrições e fluxos passam a refletir alinhamentos estratégicos. Empresas que ignorarem essa dimensão tendem a operar com desvantagem crescente.

Na tecnologia, o movimento é ainda mais evidente. A disputa por liderança em inteligência artificial, semicondutores e sistemas de segurança ganha velocidade. A tecnologia deixa de ser apenas um diferencial competitivo e passa a ser questão de soberania nacional. Isso acelera investimentos, mas também fragmenta mercados.

No campo financeiro, o comportamento é previsível, mas relevante. Em momentos de incerteza, o capital busca proteção. Dólar, ouro e títulos soberanos ganham espaço, enquanto mercados emergentes enfrentam maior volatilidade. O risco geopolítico, que antes era periférico, agora está no centro das decisões de investimento.

Há ainda setores que crescem diretamente com esse ambiente. A indústria de defesa entra em um novo ciclo de expansão, impulsionada por orçamentos maiores e pela necessidade de modernização tecnológica. O mesmo ocorre com cibersegurança e tecnologias de uso dual.

Por outro lado, áreas como turismo e aviação sentem o impacto de forma imediata — e eu vivi isso na prática. Rotas são alteradas, operações suspensas, custos aumentam e a percepção de risco afeta diretamente a demanda. Em contrapartida, destinos considerados seguros passam a ganhar espaço.

No varejo, o impacto chega de forma indireta, mas consistente. Energia e alimentos mais caros pressionam o consumidor, que passa a rever padrões de consumo. Isso exige adaptação rápida das empresas, tanto em preço quanto em posicionamento.

Até setores como construção e infraestrutura são afetados. O aumento no custo de insumos e a maior incerteza tornam os investimentos mais seletivos e exigem maior rigor na alocação de capital.

No meio de tudo isso, surge um aparente paradoxo. No curto prazo, cresce a dependência de combustíveis fósseis. No médio e longo prazo, aumenta a urgência da transição energética. Esse movimento tende a fortalecer projetos consistentes de energia limpa e também o mercado de créditos de carbono — especialmente aqueles com base real e governança sólida.

O que se desenha, portanto, é uma nova lógica. A globalização como conhecemos não desaparece, mas se transforma. Cadeias produtivas mais regionalizadas, decisões mais estratégicas e uma economia menos previsível passam a definir o ambiente de negócios.

A experiência recente reforçou uma convicção: os impactos da guerra não são apenas militares ou regionais. Eles são econômicos, imediatos e globais.

E, neste novo cenário, vantagem competitiva não estará apenas em produzir melhor ou mais barato. Estará em compreender o contexto, antecipar movimentos e saber se posicionar.

A economia global entrou definitivamente na era da geopolítica.

(*) Henry Uliano Quaresma é CEO da Brasil Business Partners e membro de conselhos de empresas e entidades empresariais. Atuou como Diretor Executivo da Federação das Indústrias do Estado de Santa Catarina (FIESC), onde participou ou coordenou mais de 90 missões empresariais internacionais em mais de 50 países, fortalecendo a inserção global da indústria.

Sua trajetória combina experiência no setor privado, no governo e no meio acadêmico, tendo atuado como professor universitário, executivo industrial e gestor público. É engenheiro, com MBA em Administração Global pela Universidade Independente de Lisboa, especialização em Marketing pela FGV e formação executiva em Estratégia e Gestão pela Wharton School (EUA) e pela INSEAD (França).

Autor de artigos e livros de referência, destaca-se a obra “O Fator China: Oportunidades e Desafios” (2024), amplamente reconhecida no meio empresarial, além dos e-books “Internacionalização Acelerada” (2025) e “Inovação na China” (2025).
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