Entender a China deixou de ser uma escolha estratégica opcional para as empresas brasileiras. Trata-se, hoje, de uma condição essencial para qualquer organização que deseje crescer de forma sustentável, ampliar competitividade ou posicionar-se globalmente.

Os dados consolidados de 2025 evidenciam que a relação Brasil–China não é conjuntural — é estrutural.

1. A dimensão real da parceria comercial

Em 2025, a corrente de comércio bilateral atingiu aproximadamente US$ 171 bilhões, com crescimento de 8,2% em relação ao ano anterior.

Exportações brasileiras para a China: cerca de US$ 100 bilhões (+6%).

Importações brasileiras provenientes da China: US$ 70,9 bilhões (+11,5%).

A China respondeu por 28,7% das exportações brasileiras.

E por 25,3% das importações totais do Brasil.

Isso significa que praticamente um terço do comércio exterior brasileiro está diretamente vinculado à China.

Não se trata apenas de volume. Trata-se de influência. A China impacta preços internacionais de commodities, cadeias de suprimentos industriais, decisões de investimento e estratégias logísticas globais.

Qualquer planejamento empresarial sério no Brasil precisa considerar essa variável.

2. A força da economia chinesa no cenário global

Segundo dados oficiais divulgados no início de 2026, o PIB da China cresceu aproximadamente 5,0% em 2025, alcançando cerca de RMB 140,2 trilhões (aproximadamente US$ 19,6 trilhões).

Mesmo em um contexto global de desaceleração e tensões geopolíticas, a economia chinesa manteve:

Forte base industrial; Elevada capacidade produtiva; Liderança em manufatura avançada; Investimentos contínuos em tecnologia, inteligência artificial e automação; Expansão do setor de serviços e consumo interno.

A China não é apenas a “fábrica do mundo”. É também um dos principais polos globais de inovação tecnológica e de escala industrial.

Isso afeta diretamente empresas brasileiras — seja na formação de preços, na disponibilidade de insumos, na concorrência industrial ou nas oportunidades de exportação.

3. Oportunidades consolidadas para o Brasil

a) Demanda estruturada por commodities e alimentos

O crescimento da exportação brasileira para a China em 2025 foi sustentado por setores estratégicos como: Soja e complexo do agronegócio; Carnes e proteínas animais; Açúcar e produtos agroindustriais;  Minério de ferro; Celulose.

A China continuará sendo, no médio prazo, um dos principais compradores globais de alimentos e matérias-primas. A urbanização, o aumento da renda e a transição do padrão de consumo mantêm essa demanda relevante.

Empresas brasileiras que compreendem as exigências sanitárias, regulatórias e comerciais chinesas tendem a ampliar participação nesse mercado.

b) Inserção nas cadeias globais de valor

Grande parte da indústria mundial está integrada a cadeias produtivas nas quais a China exerce papel central — seja como fornecedora de componentes, seja como montadora final, seja como investidora.

Empresas brasileiras que entendem essa lógica conseguem:

Estruturar compras estratégicas; Desenvolver joint ventures; Reduzir custos operacionais; Diversificar fornecedores; Integrar-se a cadeias industriais mais sofisticadas.

Ignorar essa dinâmica significa permanecer isolado de um dos principais centros industriais do planeta.

c) Tecnologia, digitalização e varejo

A China lidera mundialmente em:

Comércio eletrônico; Pagamentos digitais; Integração entre indústria e plataformas digitais; Inteligência artificial aplicada ao varejo e logística.

O modelo chinês de integração entre indústria, tecnologia e consumo já influencia mercados globais. Empresas brasileiras que acompanham essa evolução antecipam tendências e fortalecem sua competitividade.

4. A importância da presença física e do relacionamento

Compreender a China exige mais do que leitura de relatórios. Exige presença.

Visitas estruturadas ao país permitem:

Negociação direta com fabricantes e distribuidores; Avaliação real de capacidade produtiva; Identificação de parceiros tecnológicos; Compreensão da cultura empresarial; Construção de rede de relacionamento (guanxi).

A experiência prática reduz riscos, acelera decisões e amplia visão estratégica. Missões empresariais bem planejadas transformam percepção em oportunidade concreta.

A China é um mercado onde confiança e relacionamento são ativos estratégicos.

5. Impacto direto sobre decisões empresariais no Brasil

Quando a China ajusta política industrial, altera padrões regulatórios ou redefine prioridades de importação, os efeitos repercutem diretamente no Brasil.

Isso impacta:

O agronegócio; A mineração; A indústria de base; O varejo; O setor de tecnologia; A logística portuária.

Decisões tomadas em Pequim ou nas grandes cidades chinesas influenciam preços, contratos, investimentos e planejamento estratégico no Brasil.

Portanto, entender a China é entender parte significativa do próprio ambiente econômico brasileiro.

6. Estratégia, não curiosidade

Estudar a China não é um exercício acadêmico. É uma estratégia empresarial.

O mercado bilateral superior a US$ 170 bilhões demonstra escala.
O crescimento consistente mostra resiliência.
A estrutura produtiva revela competitividade.

Empresas brasileiras que ignorarem esse cenário correm o risco de perder espaço em cadeias globais, de pagar mais caro por insumos ou de deixar oportunidades de exportação nas mãos de concorrentes mais preparados.

Conhecer a China de perto não é custo.
É investimento estratégico na competitividade futura.


Henry Uliano Quaresma é CEO da Brasil Business Partners e membro de conselhos de empresas e entidades empresariais. Atuou como Diretor Executivo da Federação das Indústrias do Estado de Santa Catarina (FIESC), onde participou ou coordenou mais de 90 missões empresariais internacionais em mais de 50 países, fortalecendo a inserção global da indústria.
Sua trajetória combina experiência no setor privado, no governo e no meio acadêmico, tendo atuado como professor universitário, executivo industrial e gestor público. É engenheiro, com MBA em Administração Global pela Universidade Independente de Lisboa, especialização em Marketing pela FGV e formação executiva em Estratégia e Gestão pela Wharton School (EUA) e pela INSEAD (França).
Autor de artigos e livros de referência, destaca-se a obra “O Fator China: Oportunidades e Desafios” (2024), amplamente reconhecida no meio empresarial, além dos e-books “Internacionalização Acelerada” (2025) e “Inovação na China” (2025).
[email protected]

 

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