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Henry Quaresma é autor de artigos e livros de referência, destacando-se a obra "O Fator China: Oportunidades e Desafios" (Fotos: Divulgação)
Ao longo da história econômica, poucas variáveis foram tão determinantes para a competitividade industrial quanto a energia. Foi assim na Revolução Industrial, com o carvão; no século XX, com o petróleo; e, mais recentemente, com o gás natural, ampliando eficiência e escala produtiva. O que muda no momento atual não é apenas a fonte energética, mas o papel central que a energia volta a ocupar nas decisões estratégicas da indústria.
A transição energética deixou de ser um tema periférico e passou a integrar o núcleo da competitividade. Hoje, a energia define onde se investe, onde se produz e quais regiões conseguem manter ou atrair indústria. Esse movimento tem lógica própria e vem sendo conceituado como powershoring, termo formulado por Jorge Arbache, ex-vice-presidente do Banco de Desenvolvimento da América Latina e Caribe (CAF), para descrever a nova dinâmica de localização produtiva baseada no acesso a energia competitiva, limpa e confiável.
Na prática, o powershoring significa que a indústria passa a seguir a energia. Fábricas, centros tecnológicos e cadeias produtivas estão sendo direcionados para regiões capazes de garantir previsibilidade de fornecimento, custos competitivos, baixa intensidade de carbono e estabilidade regulatória. A energia deixa de ser apenas um insumo operacional e passa a ser um ativo estratégico de desenvolvimento.
Esse fenômeno é especialmente relevante para estados industriais como Santa Catarina. Com uma economia diversificada, forte presença da indústria de transformação, alto grau de inserção internacional e cadeias produtivas intensivas em energia — como alimentos, metalmecânica, cerâmica, papel e celulose, têxtil, plásticos e logística — o estado sente de forma direta o impacto do custo e da qualidade da energia sobre sua competitividade.
Em muitas dessas cadeias, a energia representa parcela significativa do custo total de produção e influencia decisões de investimento, ampliação de capacidade e localização de plantas industriais. Em um ambiente global marcado por instabilidade geopolítica, pressão regulatória e exigências ambientais crescentes, produzir com energia cara, instável ou intensiva em carbono deixou de ser apenas um problema de margem; tornou-se um risco estratégico.
É nesse ponto que a transição energética se conecta diretamente à política industrial catarinense. Não existe indústria competitiva sem energia competitiva. Não existe reindustrialização sustentável sem planejamento energético. E não existe inserção internacional consistente sem uma matriz capaz de oferecer segurança, previsibilidade e eficiência ao setor produtivo.
Santa Catarina reúne atributos importantes nesse novo cenário. O estado está inserido em uma matriz elétrica majoritariamente limpa, conta com forte base industrial, infraestrutura logística relevante e potencial crescente em gás natural, biogás, biometano, energias renováveis e soluções de eficiência energética. Esses elementos posicionam o estado de forma favorável no contexto do powershoring, especialmente em um momento em que empresas globais reavaliam suas cadeias produtivas.
No entanto, vantagem estrutural não se converte automaticamente em competitividade real. O desafio central está em transformar potencial energético em energia industrial efetivamente competitiva. Isso exige coordenação entre política energética, política industrial e planejamento de infraestrutura. Energia limpa sem confiabilidade não atrai indústria. Energia disponível sem previsibilidade regulatória não sustenta investimentos de longo prazo. E energia competitiva sem integração logística perde capacidade de gerar valor.
A experiência internacional recente reforça essa lógica. A crise energética europeia evidenciou como a dependência de fontes concentradas e instáveis pode comprometer rapidamente a competitividade industrial. Empresas reduziram produção, adiaram investimentos ou deslocaram operações para regiões com energia mais previsível. Esse movimento não foi ideológico; foi econômico. E tende a se repetir.
Para Santa Catarina, isso representa uma oportunidade estratégica. O estado pode se posicionar como polo nacional de powershoring industrial, atraindo investimentos, fortalecendo cadeias existentes e ampliando sua inserção internacional. Para isso, é fundamental tratar a energia como eixo central da estratégia de desenvolvimento, e não apenas como tema setorial.
Para as empresas catarinenses, a mensagem é clara. A transição energética não deve ser encarada como custo adicional ou exigência regulatória, mas como instrumento de competitividade. Eficiência energética, diversificação de fontes, eletrificação de processos, uso inteligente do gás natural e soluções de baixo carbono passaram a ser decisões centrais de negócio.
Em síntese, o mundo não está apenas caminhando para produzir de forma mais limpa. Está caminhando para produzir onde a energia viabiliza competitividade industrial, segurança econômica e inserção global. Santa Catarina tem condições concretas de ocupar esse espaço. Transformar esse potencial em realidade depende de visão estratégica, coordenação institucional e decisões tomadas no presente.
(*) Henry Uliano Quaresma é CEO da Brasil Business Partners e membro de conselhos de empresas e entidades empresariais. Atuou como Diretor Executivo da Federação das Indústrias do Estado de Santa Catarina (FIESC), onde participou ou coordenou mais de 90 missões empresariais internacionais em mais de 50 países, fortalecendo a inserção global da indústria.
Sua trajetória combina experiência no setor privado, no governo e no meio acadêmico, tendo atuado como professor universitário, executivo industrial e gestor público. É engenheiro, com MBA em Administração Global pela Universidade Independente de Lisboa, especialização em Marketing pela FGV e formação executiva em Estratégia e Gestão pela Wharton School (EUA) e pela INSEAD (França).
Autor de artigos e livros de referência, destaca-se a obra “O Fator China: Oportunidades e Desafios” (2024), amplamente reconhecida no meio empresarial, além dos e-books “Internacionalização Acelerada” (2025) e “Inovação na China” (2025).
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