As negociações entre Brasil e Estados Unidos em torno da questão tarifária — somadas aos acordos recentemente firmados pelos EUA com outros países — reforçam uma constatação incontornável: a arquitetura da governança global mudou. Instituições criadas no pós-guerra, como a Organização das Nações Unidas (ONU), o Fundo Monetário Internacional (FMI) e o Banco Mundial, atravessam uma crise profunda de legitimidade e eficácia.

Concebidas para assegurar estabilidade, previsibilidade e paz, essas organizações revelam hoje limitações evidentes. A paralisia do Conselho de Segurança da ONU diante de conflitos como a guerra na Ucrânia e a crise em Gaza expõe o esgotamento de mecanismos decisórios ancorados em uma correlação de forças que já não reflete a realidade geopolítica contemporânea. No campo econômico-comercial, a Organização Mundial do Comércio (OMC), criada para arbitrar disputas e conter práticas protecionistas, perdeu capacidade de ação e não conseguiu frear a escalada de barreiras nos últimos anos.

Nesse vácuo institucional, novos arranjos ganharam protagonismo. O G20 consolidou-se como o principal fórum de coordenação econômica global, reunindo economias avançadas e emergentes em torno de agendas pragmáticas. Em paralelo, o BRICS — agora ampliado — busca afirmar-se como contraponto ao eixo tradicionalmente ocidental, defendendo reformas na ordem internacional e criando instrumentos próprios, como o Novo Banco de Desenvolvimento (NDB).

Esses movimentos sinalizam uma transição da governança hierarquizada para um multilateralismo em rede. Trata-se de um modelo marcado por instâncias mais flexíveis, muitas vezes informais e orientadas por objetivos específicos, nas quais o setor privado passa a exercer papel direto. O B20 atua como braço empresarial do G20; o Conselho Empresarial dos BRICS (CEBRICS) cumpre função similar no âmbito do bloco; e a SB COP (Sustainable Business COP), iniciativa idealizada pela Confederação Nacional da Indústria (CNI), surge para inserir de forma estruturada o setor produtivo nas negociações climáticas da ONU. A cooperação internacional deixa, assim, de se apoiar exclusivamente em normas rígidas e passa a ser guiada por convergências circunstanciais de interesse.

Nesse novo ambiente, a diplomacia já não se organiza prioritariamente em torno de instituições centrais e regras universais. Ela passa a depender, cada vez mais, da capacidade de cada país de articular seus interesses estratégicos, sustentar seus valores e projetar poder — seja ele hard, econômico ou soft. Embora todos os Estados tenham assento à mesa, a influência real decorre da coerência entre esses três vetores.

Para o Brasil, o desafio é estratégico. Trata-se de encontrar um lugar ativo e relevante em um sistema em transição, equilibrando princípios históricos de autonomia, multilateralismo e desenvolvimento sustentável com a capacidade concreta de exercer influência além do discurso. Em um cenário menos normativo, torna-se crucial saber operar em ambientes de regras fluidas, nos quais a negociação direta, a articulação de coalizões e o alinhamento de interesses prevalecem sobre compromissos formais.

Compreender essa nova lógica é decisivo para que o país consiga calibrar com precisão seus eixos de valor, interesse e poder. Isso é particularmente relevante no momento atual, em que o Brasil busca reverter o tarifaço imposto pelos Estados Unidos sobre seus produtos. Mais do que uma disputa comercial, trata-se de um teste da capacidade brasileira de atuar com pragmatismo, consistência e ambição em um multilateralismo em transformação.

*Frederico Lamego é superintendente de Relações Internacionais da CNI.

O artigo foi publicado originalmente no Poder 360.

Siga-nos no Google notícias

Google News