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or trás de cada feminicídio, filhos e familiares passam a conviver com a ausência e as marcas da violência; prevenção e acolhimento podem evitar que novas histórias sejam interrompidas. (Fotos: Masi - Pexels / Edição Agência)
Casos recentes mostram como a violência atinge famílias inteiras e por que prevenir é tão urgente quanto punir
Em Santa Catarina, 52 mulheres foram vítimas de feminicídio em 2025. Até junho de 2026, o Estado já contabilizava 28 casos. Os números ajudam a dimensionar a violência, mas não conseguem revelar tudo o que acontece depois de cada crime. Para cada mulher assassinada, existe uma família que precisa lidar com a ausência, o trauma e, muitas vezes, com consequências que permanecem por anos ou atravessam gerações.
No Brasil, uma mulher é vítima de feminicídio, em média, a cada 5 horas e 25 minutos. Na maioria dos casos, o autor é alguém que fazia parte do círculo de convivência da vítima, como marido, companheiro ou namorado.
O feminicídio, portanto, raramente começa no momento do assassinato. Em muitos casos, ele é o último capítulo de uma história marcada por ameaças, controle, violência psicológica, agressões físicas e pedidos de ajuda que nem sempre são ouvidos.
A história da estudante de Ciências Biológicas Joviana Evelyn Iankovski, de 19 anos, assassinada em Sangão, no Sul de Santa Catarina, ajuda a dimensionar a tragédia que existe por trás de uma estatística.
Joviana tinha planos. Iria cursar Ciências Biológicas na Unesc, sonhava em conhecer o mundo, fazer um mochilão e realizar trabalho voluntário na África. Gostava de ler, assistir a filmes e estudar política e história. Para as amigas, era uma jovem curiosa, livre, gentil e cheia de sonhos.
Tudo isso foi interrompido.
O namorado, José Gustavo Rabelo, de 21 anos, confessou o crime e foi preso. Segundo a investigação, ele afirmou ter matado a estudante após um desentendimento do casal. A mãe de Joviana acionou a Polícia Militar depois de desconfiar de incoerências nas mensagens enviadas pelo celular da filha. A jovem havia sido vista pela família pela última vez na quinta-feira, 6 de agosto. Menos de 24 horas depois, estava morta.
A história de Joviana mostra aquilo que os números não conseguem traduzir: o feminicídio não termina com a morte da mulher. Quando uma mulher é assassinada, filhos, pais, irmãos, amigos e outros familiares também passam a conviver com uma perda que não pode ser reparada.
Para crianças e adolescentes, as consequências podem ser ainda mais profundas quando a mãe é morta justamente por alguém que fazia parte do cotidiano da família. Em alguns casos, além de perder a mãe, os filhos presenciam a violência ou precisam lidar com as consequências da prisão do pai ou padrasto apontado como autor do crime.
Foi o que aconteceu em Imbituba, no Sul do Estado. No dia 3 de agosto, uma mulher de 47 anos, identificada como Viviany Souza, morreu depois de ser esfaqueada pelo companheiro, de 63 anos. O crime aconteceu dentro da residência do casal e foi presenciado pelo filho da vítima, uma criança de 11 anos.
O menino precisou ser atendido pelo Conselho Tutelar. A ocorrência mobilizou equipes das polícias Militar, Civil e Científica. O caso evidencia uma das faces mais dolorosas da violência: crianças também são vítimas do feminicídio, mesmo quando não sofrem uma agressão física direta.
Elas podem perder a mãe, a referência familiar, a casa onde viviam e a própria sensação de segurança. Podem precisar mudar de residência, enfrentar dificuldades financeiras, receber acompanhamento psicológico e acompanhar um processo judicial que pode se prolongar por anos.
Uma história que permanece
Em outro caso emblemático, a professora Patrícia Vicente, de 43 anos, foi encontrada morta no porta-malas do próprio carro, em julho de 2020, em São José, na Grande Florianópolis. O caso foi tratado como feminicídio, e o então namorado da vítima foi apontado como autor.
Seis anos depois, a história continua presente na vida da família. A filha de Patrícia, Pabliane Beatriz, transformou a própria dor em um alerta. Ao falar sobre a mãe, ela não recorda apenas o crime. Relembra também os pedidos de socorro que vieram antes, o medo que tomou conta da família e as consequências que permanecem até hoje. “Ele não tirou só a vida dela. Tirou a nossa também.”
O depoimento resume uma realidade que muitas vezes fica invisível: a mulher é assassinada em um determinado dia, mas a violência continua produzindo efeitos sobre quem ficou.
O feminicídio, na maioria das vezes, não acontece de forma isolada. Antes do crime, podem existir episódios de violência psicológica, física, patrimonial, sexual ou moral. Podem surgir ameaças, perseguições, controle sobre a rotina, isolamento social, humilhações e tentativas de impedir que a vítima encerre o relacionamento.
É nesse momento que a prevenção pode fazer a diferença. Sancionada em 2006, a Lei Maria da Penha criou mecanismos para prevenir e enfrentar a violência doméstica e familiar contra a mulher, além de estabelecer medidas protetivas e instrumentos para responsabilizar agressores.
Medidas como o afastamento do agressor, a proibição de contato e outras formas de proteção podem representar uma barreira diante da escalada da violência. Por isso, denunciar, buscar atendimento e garantir que a rede de proteção funcione de forma integrada são medidas que podem salvar vidas.
A prevenção também passa pela capacidade de reconhecer os sinais e de não tratar ameaças, agressões, perseguições ou controle como problemas restritos à vida privada do casal. A história de Patrícia mostra como essa escalada pode acontecer.
Segundo o relato da filha, a mãe conheceu o homem que se tornaria seu namorado e, meses depois, seu assassino. Ele teria se apresentado com um nome falso. No início, parecia uma pessoa “gente boa”. Acompanhava Patrícia em festas e, depois de cerca de três semanas, pediu-a em namoro.
Um mês depois, ela descobriu sua verdadeira identidade. Também descobriu um passado marcado pela violência: segundo o relato da família, havia 37 boletins de ocorrência relacionados a agressões e registros de que ele teria deixado outra cidade após supostamente agredir uma mulher. Quando percebeu que Patrícia havia descoberto quem ele realmente era, começou a ameaçá-la.
Ela queria terminar o relacionamento. Ele não permitia. Aos poucos, a família começou a perceber a transformação. “Tu muda, tu vê a mudança da mulher. Ela tinha um sorriso no rosto e, de repente, aquele olhar começa a ficar apagado.”
Pabliane conta que a mãe deixou de sair como antes, passou a demonstrar medo e apareceu com marcas pelo corpo. Também deixou de trabalhar normalmente. As conversas entre mãe e filha ficaram mais difíceis.
Até que Pabliane insistiu:
— Mãe, denuncia.
A resposta era sempre parecida:
— Filha, a mãe tenta.
O medo, porém, não atingia apenas Patrícia. Segundo a filha, o homem também ameaçava familiares. Sabia os horários de trabalho, acompanhava deslocamentos e chegou a telefonar dizendo que estava dentro da casa dos pais dela.
Sem saber mais o que fazer, Pabliane e o tio começaram a procurar ajuda por conta própria. Foi então que ela procurou a polícia. Segundo seu relato, ouviu uma frase que jamais esqueceu: de que, às vezes, “tinha que acontecer o pior” para que alguma providência pudesse ser tomada.
Cinco meses depois, aconteceu o pior. Era 10 de julho de 2020. Uma manhã fria. Pabliane saiu para trabalhar por volta das 5h20. O marido havia chegado do trabalho pouco antes. Antes de sair, ela percebeu que o carro da mãe não estava na garagem. Sentiu um aperto no coração, mas tentou encontrar uma explicação.
Ao meio-dia, recebeu uma mensagem do marido:
— Bia, tu tem notícias da tua mãe?
Patrícia não havia aparecido para tomar café com a avó, não tinha ido trabalhar, não havia almoçado e seu carro continuava desaparecido.
A preocupação virou desespero.
Quando conseguiu sair do trabalho, Pabliane correu para casa. O telefone da mãe estava desligado.
A família começou a procurar imagens de câmeras de segurança.
Foi em uma dessas gravações que surgiu a resposta que ninguém queria encontrar.
Durante a madrugada, Pabliane viu um vulto no corredor. A iluminação da rua falhou por alguns segundos. Quando a luz voltou, ela conseguiu enxergar. Era o homem carregando a mãe, enrolada em um cobertor. O cabelo dela estava para fora.
Ele colocou o corpo no porta-malas do carro, voltou para dentro da casa, colocou os pertences dela no veículo e fugiu. A partir dali, começou uma corrida contra o tempo. A família passou a bater de porta em porta atrás de imagens de câmeras de segurança. Procurou hospitais. Foi à Delegacia da Mulher. Tentou reconstruir os últimos passos da vítima.
Até que o corpo foi encontrado dentro do porta-malas do carro, em um supermercado no bairro J. Vargas. O homem fugiu, mas acabou preso dois dias depois, em Florianópolis. Pabliane passou a reunir imagens, mensagens, registros e provas para ajudar na investigação. Fez tudo o que podia para que a história da mãe não fosse reduzida a mais um caso.
Mas nenhuma prova poderia devolver aquilo que a família havia perdido. “Ele levou a nossa mãe.” O feminicídio não terminou no dia em que Patrícia foi assassinada.
Ele continuou na vida das filhas, dos netos e dos pais. “Ele não tirou só a vida dela. Ele tirou da gente também.” A dor atingiu toda a família. O avô não suportou a perda da filha. Entrou em depressão e morreu posteriormente. A avó sofreu três AVCs e hoje enfrenta um quadro avançado de Alzheimer. Os filhos de Patrícia também cresceram carregando perguntas para as quais não existem respostas simples.
Eles eram pequenos quando perderam a avó, mas se lembram dela. Perguntam por que aquilo aconteceu. Querem saber por que ninguém conseguiu ajudá-la. E existe uma pergunta especialmente dolorosa:
“Por que ninguém ajudou?”
Hoje, as filhas fazem tratamento psicológico e psiquiátrico. Pabliane conta que passou a viver com medo. “Eu não sei mais o que é andar na rua sem ter medo. Eu não sei mais o que é dormir dentro de casa sem ter medo. Eu não sei mais o que é levar um filho para a escola e confiar. A gente não tem mais tranquilidade.”
A violência também levou algo que não aparece nos boletins de ocorrência: a sensação de segurança, a confiança e parte da inocência de uma família. “Ele levou até a parte da inocência da gente de acreditar em algo bom.”
“A minha mãe pedia socorro sem poder gritar” Patrícia tinha 43 anos. Era uma mulher alegre, gostava de sair, encontrar as amigas e construía o sonho de se tornar professora. Não chegou a realizá-lo.
Para Pabliane, uma das partes mais dolorosas da história é saber que houve sinais antes do crime.
Houve ameaças.
Houve violência.
Houve medo.
Houve pedidos de ajuda.
E, segundo ela, houve um momento em que alguém da família tentou pedir socorro. “Eu creio que, se eu tivesse sido escutada, ou se as outras mulheres que sofreram na mão dele tivessem sido escutadas, hoje a minha mãe estaria viva.”
É por isso que, ao falar sobre o que aconteceu, Pabliane não fala apenas da própria mãe. Fala também por outras mulheres que podem estar vivendo situações semelhantes. “A minha mãe pedia socorro sem poder gritar.”
Para ela, o pedido de ajuda de um familiar também precisa ser reconhecido. “Se a vítima não pede socorro, não é porque ela não quer. Às vezes ela está tão ameaçada, com tanto medo de que façam alguma coisa com as pessoas que mais ama, que não consegue pedir ajuda.”
Crianças que ficam
A dimensão das consequências para os filhos também começa a ser investigada em Santa Catarina. Para dar visibilidade a uma consequência ainda pouco conhecida dos feminicídios, o Ministério Público de Santa Catarina e a Polícia Científica iniciaram um trabalho de identificação de crianças e adolescentes que perderam as mães em decorrência desse tipo de crime.
O Estado ainda não dispõe de um levantamento consolidado sobre o número de órfãos deixados pelos feminicídios. A falta desses dados revela também uma lacuna nas políticas públicas. Saber quantas crianças foram afetadas é fundamental para dimensionar suas necessidades e garantir atendimento adequado.
Esses meninos e meninas precisam ser reconhecidos como vítimas indiretas da violência. Podem perder a mãe e, em algumas situações, também a referência familiar, a estabilidade financeira e a própria casa. Precisam lidar com mudanças de rotina, acompanhamento psicológico e, muitas vezes, com um processo judicial que pode se estender por anos.
Enfrentar o feminicídio exige mais do que punir o autor depois do crime. É necessário fortalecer a prevenção, ampliar a rede de atendimento, garantir proteção às mulheres que denunciam e oferecer suporte às crianças e adolescentes que sobrevivem à violência.
Cada denúncia acolhida, cada medida protetiva efetivamente cumprida e cada mulher que consegue romper um ciclo de violência antes que ele evolua para uma tragédia podem representar uma vida preservada.
A história de Patrícia, de Joviana, de Viviany e de tantas outras mulheres mostra que o feminicídio não pode ser tratado apenas como o desfecho de um crime. É também uma ruptura que atravessa famílias inteiras.
Uma mãe deixa de acompanhar o crescimento dos filhos. Uma avó deixa de ver os netos crescerem. Uma filha passa a viver com medo. Um pai precisa aprender a conviver com a ausência da filha. E crianças crescem tentando compreender por que alguém que amavam não está mais ali.
Por isso, a pergunta não deve ser feita apenas depois da tragédia.
Ela precisa ser feita antes:
Quem está pedindo ajuda? Quem está ouvindo? E o que pode ser feito agora para impedir que aconteça o pior?
Porque, quando uma mulher é assassinada, não é apenas uma vida que termina.
Para muitas famílias, começa uma história de ausência que pode ser carregada por gerações.
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