Durante os próximos oito anos, centenários como dona Mariquinha serão entrevistados para uma pesquisa inédita no estado

Estudo pretende identificar os fatores que influenciam na longevidade e buscar informações que possam melhorar o atendimento aos idosos.

 

Maria de Souza Bueno foi registrada em 12 de fevereiro de 1916 na cidade gaúcha de Passo Fundo. Como em inúmeros outros casos, o documento não veio logo após o nascimento. E hoje, nem ela, nem os filhos sabem ao certo quando nasceu.

No passado, muitos garantiram que ela veio ao mundo em 1903. Se isso for verdade, ela é uma das mulheres mais idosas do país e as rugas de seu rosto espelham a passagem dos últimos 112 anos.

Antes de chegar a uma casa simples de madeira por pintar, entre a zona urbana de São Miguel do Oeste e a linha Emboaba, há três anos, Mariquinha, como foi carinhosamente apelidada, era agricultora, teve cinco filhos, adotou mais quatro e com suas mãos de parteira trouxe outros tantos à vida. A benzedeira que andava quase sempre de pés descalços viu o mundo entrar em guerra, observou de longe a tecnologia chegar, viu morrer  o marido e a maior parte dos filhos, e hoje leva quarenta anos de vantagem em relação à expectativa média de vida dos brasileiros, que segundo o IBGE (Instituto Geral de Geografia e Estatística), em 2013, era de 74,9 anos.

Sem saber, pois já não enxerga, e com dificuldades para ouvir e se locomover, ela contribuiu para aumentar a longevidade. Se comparados com os dados de 35 anos atrás, agora, os brasileiros vivem, em média, dez anos a mais. Mas, encontrar centenários como dona Mariquina não é tão comum assim. A estimativa atual, baseada no número de pessoas que tinham 97 anos ou mais no Censo Demográfico de 2010, é que eles sejam em torno de 1,2 mil em Santa Catarina, estado que tem cerca de 6,7 milhões de habitantes.

Só que um estudo, provocado por pesquisadores da Udesc (Universidade do Estado de Santa Catarina) e conduzido por uma equipe do Lager (Laboratório de Gerontologia) do Centro de Ciências da Saúde e do Esporte, pode, com o passar do tempo, até aumentar a possibilidade de encontrar um centenário no Estado. É que o SC 100 - Estudo Multidimensional dos Centenários de Santa Catarina, que deve ser desenvolvido durante os próximos oito anos, vai procurar identificar e entender o os fatores que influenciam na longevidade.

A iniciativa, inédita no estado, inclui questões relacionadas a gênero, estado civil, escolaridade, situação econômica, alimentação, atividades físicas e de lazer. São considerados, ainda, fatores como humor e depressão, percepções e expectativas do idoso, assim como a rede de suporte social. O objetivo é apontar estratégias para melhorar a assistência oferecida à população dessa faixa etária. E agora, o desafio da equipe de pesquisadores, chefiada pela doutora Giovana Zarpellon Mazo, é localizar os idosos com 100 anos ou mais que moram em Santa Catarina.

Para a assistente social do Creas (Centro de Referência Especializado em Assistência Social), Ana Paula Puhle, a iniciativa é interessante já que a partir dos dados será possível traçar metas para atender a população dessa faixa etária. Ela entende que isso é urgente por que a população brasileira envelheceu seis vezes mais rápido que a França, que é um país considerado de primeiro mundo.

A assistente social destaca que isso é reflexo da baixa na taxa de fecundidade e das políticas públicas voltadas à Saúde e à Assistência Social. Entretanto, ainda há muitas incertezas sobre o tratamento dado ao idoso. Na pauta dos Objetivos do Milênio, por exemplo, não consta o envelhecimento ativo. "Por mais que, de um lado, o cenário é favorável à melhoria da qualidade de vida, em que agenda governamental está prevista a questão do envelhecimento? Temos que pensar hoje em estratégias e políticas públicas para atender esse contingente populacional que só tende a crescer. Hoje, para cada 100 crianças há em torno de 50 idosos. Em 2060, para cada 100 crianças existirão 260 idosos", pontua.

Aumentar o orçamento disponível para os setores que atendem esse segmento, de acordo com Ana Paula, pode ser outra saída somada às pesquisas, à viabilização de acessibilidade e o fortalecimento de vínculos. "Temos discrepâncias em relação aos investimentos públicos. O estado de Santa Catarina não chega a repassar 1% do orçamento para a área de Assistência Social. Nós lutamos também aumentar os repasses no nosso município para 5%, já que hoje não chega a 3%", analisa a assistente social.

PERFIL

A primeira etapa do levantamento está sendo realizada na Grande Florianópolis. Em seguida, a pesquisa terá continuidade nas outras cinco mesorregiões do estado. Até o momento, considerando um estudo inicial feito em 2010, já foram entrevistados 52 centenários e as conclusões preliminares apontam que diversos aspectos influenciam na longevidade.

A educadora física e doutoranda Inês Amanda Streit, que participa do Conselho Estadual do Idoso e da ANG/SC (Associação Nacional de Gerontologia de Santa Catarina), antecipa um perfil do idoso centenário. "De forma geral, eles têm boas condições mentais e poucas doenças, usam poucos remédios. Também percebemos que as atividades são mais restritas ao ambiente domiciliar. No aspecto psicológico, podemos adiantar que são pessoas resilientes, com a capacidade de superar problemas e perdas, que conseguem ter uma visão positiva perante a vida", detalha a pesquisadora.

Outra particularidade é que a população com 100 anos ou mais é composta, em sua maioria, por mulheres. "É o fenômeno da feminização da velhice. E quanto mais avançada a idade, mais acentuada fica essa diferença. Por exemplo: na fase inicial do estudo, entre os 30 primeiros entrevistados, 25 eram mulheres e cinco, homens", pontua.

Dona Mariquinha preenche praticamente todas as características desse perfil. Apesar de não contar com a lucidez, só toma umas gotas à noite para ajudar o sono a vir. Entretanto, limita-se a andar entre o quarto, a cozinha e o banheiro da casa alugada, que divide com a filha pensionista Catarina e o genro, trabalhador de uma madeireira. Enquanto ainda tinha as 'ideias em ordem' era animada, corajosa, uma mulher forte e de riso fácil. Só que agora, segundo a filha, as coisas têm ficado cada vez mais difíceis. "Eu tenho dó dela, porque ela sobe na cama, não deixa a gente dormir, me dá tapa, coice, derruba. Mas a gente vai fazer o quê? É mãe da gente, eu deixo ela me surrar, não machuco porque ela é velhinha e não entende nada, está que nem uma criança. Eu sofro para cuidar sozinha dela', conta Catarina Salete da Silva, que sempre morou com a mãe.

Bom é que um diferencial da pesquisa SC 100 é a abordagem referente à sobrecarga do cuidador do idoso centenário. A proposta é que os dados levantados nos questionários sirvam como suporte para a oferta de serviços de apoio para cuidadores. Para Catarina isso é bom porque tem sido muito difícil cuidar de dona Mariquinha nos últimos anos. "Não posso deixá-la sozinha nem por dez minutos. Se eu me descuido um pouco ela já aprontou uma. E eu tenho problema de saúde, às vezes preciso sair, mas não tenho com quem deixar. Então, me obrigo a pagar alguém. Sabe que ninguém faz isso, troca fralda, de graça. Aí, no fim do mês a coisa aperta um pouco. Só que a gente vai economizando onde dá, o que não deixo faltar são as comidas que ela gosta iogurte, pão, leite e carne, que ela gosta muito", destaca Catarina, lembrando que houve um tempo em que a centenária não gostava tanto assim de carne. Quando era mais nova, o que mais comia eram frutas, mandioca, batata-doce, canjica, e biju. Dali é que a analfabeta, que apenas aprendeu a assinar o nome, tirava forças para capinar, roçar, plantar e colher, inclusive preparar as pranchas que depois seriam usadas para fazer a casa. "Todo mundo dizia que ela era um trunfo no serviço", pontua a filha.

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