Jornalista Paulo Ricardo Ferreira foi ao bairro Campo D'Água Verde para ver o que mudou após ação da polícia para conter criminalidade

Texto: Paulo Ricardo Ferreira/Jornal Ótimo

"Ah, depois que a polícia começou a passar mais por aqui, melhorou bastante, já faz 3 dias que não tem tiros"

Era 19 de agosto, e foi com essa frase que João* respondeu a minha curiosidade de saber se as coisas tinham melhorado após o início da Operação Sufocação no bairro Campo D'Água Verde. Um homem simples, de uns 60 anos, mecânico da pele judiada pelo trabalho que exerceu durante toda a vida. Ele e sua esposa, Clarice, meio receosos, até um pouco desconfiados como todo bom canoinhense, relataram fragmentos da realidade em viver ao lado de um dos locais mais violentos do Planalto Norte. Mas essa história começa bem antes.

Nos últimos anos o Campo D'Agua Verde, em sua área mais central, a que se localiza na Avenida dos Expedicionários, começou a ter contato com uma realidade pouco visível naquele local até então. Usuários de drogas começaram a aparecer com mais frequência, o tráfico, mesmo que de forma discreta, podia ser visto por moradores a luz do dia, assaltos à mão armada começaram a trazer medo e prejuízo ao comércio local.

No final do mês de julho, a população tornou pública a situação violenta em que o bairro se encontrava, através do Conselho de Segurança da Comunidade. Em uma reunião com a presença de lideranças políticas, do comandante da Polícia Militar de Canoinhas, Coronel Mário Renato Erzinger e do delegado de Polícia Civil, Wagner Meirelles, a comunidade elencou seus receios e cobrou ações mais efetivas no setor de segurança.

Poucos dias depois, numa ação conjunta entre as polícias civil e militar, foi deflagrada a Operação Sufocação. Nessa ação, a polícia cumpriu vários mandados de prisão e apreensão, fechou o cerco contra a criminalidade, aumentou o policiamento ostensivo e realizou inúmeras revistas. Eram tantas viaturas, que à noite, lá de cima, no Alto da Tijuca, era possível ver o intenso movimento das luzes policiais avermelhando o bairro Campo D'Água Verde. - Olha, parece um filme - disse um amigo meu ao se deparar com a cena.

O resultado foi a apreensão de menores, drogas, armas, prisão de traficantes, flagrantes de pessoas com dinheiro falso. Irregularidades e mais irregularidades que pareciam não ter fim. E o problema ainda iria muito além.

Hoje a operação completa 19 dias. Durante essa semana, visitamos o bairro para tentar entender quais são os resultados práticos na vida das pessoas que lá residem e o que acabamos encontrando, foram duas realidades muito distintas do que é violência.

Ao conversar com moradores e comerciantes na Avenida dos Expedicionários, percebi que o trabalho que a polícia tem realizado nos últimos dias tem sido recebido com louvor. Ambos garantem que a violência diminuiu drasticamente. Muitos chegam a afirmar que só a presença constante de policiais inibe a criminalidade. Em conversa pelo telefone com o vereador, Wilmar Sudoski, que também é membro do conselho de segurança, ele relatou como a sensação de violência tinha sido amenizada pelo trabalho da PM, aos quais, até aproveitou para agradecer. No entanto, ao andar dois quarteirões no sentido de quem vai ao local popularmente conhecido como Raia, a realidade já era outra.

Nas minhas primeiras abordagens, percebi que de violência, crime ou polícia, ninguém queria falar. Todos me olhavam apreensivos, como se tivessem medo de tocar no assunto. Ao ser um pouco mais insistente, algumas pessoas iam cedendo e me conduzindo a realidade a qual queria (?) encontrar.

A primeira pessoa que conversou comigo era moradora da Rua Alvino Voigt. Ela, assim como quase todos com quem troquei algumas palavras, pediu para não ser identificada, então a chamarei de Maria*. Gosto do nome. Ela relatou que ali mesmo, em sua rua, se eu esperasse o entardecer, ia conseguir ver um grande movimento em uma casa de madeira, aonde pessoas chegavam e saiam com frequência, todos jovens e homens. Ela disse que possivelmente alguns até sairiam utilizando o que ela definiu como "aquela craca que aparece na televisão e que eles ficam tudo emaconhado". Provavelmente se referia ao Crack. Uma das drogas mais nocivas presentes em nossa sociedade. Ainda naquela rua encontrei Sílvia* que relatou uma situação muito parecida e colocou um agravante: "Aqui não dá pra deixar a casa aberta nem pra ir ao vizinho que corre o risco de voltar e já terem levado as coisas da casa". Intervi. Perguntei se ela já tinha sido roubada. Confirmou: "sim já levaram TV, DVD, até minhas panelas já sumiram". Questionei se era rotina no bairro e Sílvia afirmou que sim. Ao conversar sobre a operação sufocação, disse que percebeu o forte policiamento dos últimos dias, porém, abriu um sorriso um tanto quanto triste, de quem sorri por desacreditar: "mas não adianta moço, eles - os bandidos - aprontam quando a polícia não tá vendo".

Segui pela Rua Otávio Tabalipa. Já era possível perceber as inúmeras casas em que os muros são cobertos com vidros quebrados e pontiagudos para evitar que alguém consiga pular. É o medo da população fazendo ela se cercar ainda mais, de maneiras mais criativas, mais perigosas.

Quando parei em um mercado para comprar água, conversei com o proprietário que me contou que as coisas estavam bem piores antes da operação sufocação, mas que a algumas quadras dali, não seria bom eu nem passar de carro. A situação estava crítica. Eram três da tarde. Falei pra ele que eu estava fazendo uma abordagem imparcial, sem lados, querendo ouvir o que as pessoas tinham a dizer, foi quando ele interveio: "se perguntar pra pessoa errada podem até te espancar". Resolvi prosseguir, então ele recomendou uma casa, vizinha ao local, no qual poderia conversar sem problemas. La fui eu.

Não foi só o empresário que me alertou do risco. Outros populares diziam: "não vai ali, você faz perguntas demais".

Ao entrar naquela rua de chão batido, com vários buracos e até uma grande poça com lama, podia-se ter uma ideia da precariedade do local. O mato que tomava conta dos lotes vazios contrastavam as casas que sobrevivem ao clima de incerteza do local. Mesmo dentro do carro, senti algo estranho. Reduzi ainda mais a velocidade. As árvores ainda tinham o verde, o sol brilhava numa linda tarde de agosto, porém, minha ótica percebia apenas o tom mórbido do calor cozinhando a poeira que subia.

Estacionei na casa indicada. Fui alertado que se passasse dali, teria problemas para retornar. Desci e perguntei por João. O homem de 60 anos veio até mim. Expliquei a situação. A conversa começou truncada. Difícil. Ele estava a ensinar o seu neto de 16 anos um pouco do ofício de mecânico: "tem que ensinar a trabalhar desde cedo pra não se meter em confusão", afirmou orgulhoso da destreza do neto. Orgulho também demonstrado pela avó, Clarice.

Depois de quebrar o gelo, João relatou alguns dos problemas que o bairro apresenta. No seu olhar não havia esperança. Tiroteios são os que ele lembra com mais frequência. Ao falar da operação sufocação, foi rápido: "Ah, depois que a polícia começou a passar mais por aqui, melhorou bastante, já faz três dias que não tem tiros". E prosseguiu: "eles estiveram aqui, prenderam algumas pessoas, encontraram armas, mas o problema é que essa coisa - referia-se a violência - continua, né?". Ele também afirmou ter medo dos tiroteios. Chegou a me mostrar marcas de tiros nos muros de seus vizinhos.

Giovani*, um amigo de João que o visitava naquela tarde, também participou da conversa. Lembrou que há alguns meses, o problema era mais concentrado "da esquina pra lá, aqui não tinha perigo", afirmou. Quando perguntei a respeito dos dias de hoje, novamente vi a expressão de um sorriso dramático junto a uma resposta amarga: "Ah, hoje eles já vem pra cá né? Olhe ali os postes na rua. Todos eles quebrados - as lâmpadas - a partir das seis horas da tarde já esta tudo muito escuro". Nesse momento, João interrompe e conta que sua filha veio morar um tempo com eles e incomodada com a situação chamou a companhia de energia, a qual trocou todas as lâmpadas. Em um dia, todas estavam quebradas novamente.

Quando pergunto se o problema daquela região está relacionado ao consumo de drogas, meio que se esquivam das respostas: "deve ser né?", diz João meio sem jeito. Giovani completa "armas também, tem dias que saem atirando". Quando pergunto se são rixas antigas que motivam os tiroteios, não sabem responder: "eles vivem se mudando, chega e sai muita gente daí", afirma João. Giovani relata que algumas famílias são expulsas das casas: "eles chegam, oferecem uma moto ou alguma coisa de pouco valor pela casa e se a pessoa não aceita, eles dão tiro, pra assustar, fazer a pessoa sair, terrorismo" e continua "essa casa da frente, eles estão ameaçando o dono, mas ele já falou que não sai". Quem são eles? Porque fazem isso? Indaguei: "Não sei" respondeu Giovani, "pra ficarem só eles aqui" argumentou João. Enquanto estava ali, percebi que éramos observados. Adolescentes passavam o tempo todo pela casa. Preferi parar a entrevista para não colocar em risco João a família e os amigos.

Fui até a esquina fazer fotos. Um homem se posicionou atrás de um poste e ficou me observando. Em determinado momento, me encarou e começou a me chamar de P2, expressão utilizada para designar policiais disfarçados. De longe tentei argumentar que trabalhava para o Ótimo, inútil. Ele subiu o tom da voz "P2", gritava. Outras pessoas começaram a tomar a rua. "P2" ele gritava ao pegar seu smartphone branco. Entrei no carro com um sorriso amarelo e voltei à redação.

Pra mim estava claro que o Estado não estava ali, a ordem era a qual eu não conhecia e que o progresso jamais teria passado perto daquele lugar. O problema estava posto é era muito maior do que eu poderia imaginar. Só pude concordar com o que vi naqueles muros: "É, a vida é loka"!

*Os nomes são fictícios para preservar a integridade dos entrevistados

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