Segundo dados da Cooperativa Turvense de Irrigação, rizicultores já temem pela falta de água
Quem para um minuto na correria do dia a dia e olha em sua volta, analisando o tempo, já percebeu que algo está diferente. Já notou, por exemplo, que os ipês que outrora tinham sua belíssima florada em setembro, fizeram aparecer aos olhos suas tonalidades em pleno mês de agosto. Há ainda aqueles que procuram pelo frio, afinal de contas o inverno está no seu auge pelo menos em termos de calendário. Não há como negar, 2015 tem sido um ano atípico.
Neste sentido, a falta d'água já se transforma em um velho fantasma que há muito tempo assusta nossos agricultores, mas que por uma certa dose de milagre divino jamais nos roubou uma safra inteira. Em contrapartida, formas de se evitar tal tragédia para a economia da região, como a construção da Barragem de Rio do Salto, cantada em prosa e verso nas últimas eleições, ainda não saiu do papel.
Enquanto isso, nossos agricultores trabalham com o que tem em mãos. Em Turvo, um trabalho minucioso está sendo feito há quase duas décadas com o intuito de poder prever o que pode acontecer com as condições climáticas que acabam influindo diretamente na produtividade das lavouras do município que mais produz sementes de arroz no território catarinense. A iniciativa é da Cootil (Cooperativa Turvense de Irrigação).
Segundo os pluviômetros da cooperativa, instalados em três dos seus setores de distribuição de água para os associados, em comunidades do município de Turvo, até agora (terça-feira, dia 18) as precipitações de chuvas atingiram 10.33mm (milímetros) neste mês. Para efeito de comparação, dentre os doze meses do ano, agosto é o oitavo que mais chove, com uma média mensal de 167.8mm.
Com uma variação nestes últimos 18 anos, e uma precipitação mínima de 26mm no ano de 2004, e a máxima acumulada de 473mm no ano de 2013. A média registrada no mês de agosto neste período (18 anos) é 167.8mm. "Se transformarmos isso (167.8mm.) em litros, corresponde a 1.678.000 litros por hectare, que por sua vez é igual à 1.678,8 metros cúbicos por hectare.", ilustra o presidente da Cootil, Rogério Bardini.
Segundo ele, o trabalho de aferição dos números é feito por três abnegados colaboradores, gerentes dos setores da Cootil, que coletam e anotam os dados marcados nos equipamentos. "Nós da cooperativa, dentro da nossa área de atuação, compilamos os dados, fazemos a média e temos a informação aproximada de quanto choveu na nossa região e nas proximidades.", coloca ele.
De acordo com Rogério, quando se fala em probabilidade de chuvas para os meses futuros, a analogia é empírica, ou seja, a análise é baseada em anotações de dados dos últimos 18 anos, dia a dia mês a mês, e não em métodos científicos e tecnológicos atuais do mundo pós moderno.
Estes registros compilados e arquivados, tornam-se fontes de pesquisa que nos permite uma projeção para as condições climáticas vindouras, além de serem memórias históricas, quase como fotografias pluviométricas do passado da nossa região, e com este embasamento nos permitimos a divagar sobre o futuro.
"Com relação ao mês de julho de 2015, segundo os nossos registros coletados nos últimos 19 anos, este mês de julho foi o que mais choveu no período, nestas quase duas décadas de dados coletados, com uma precipitação pluviométrica que atingiu os 286.6 milímetros. Neste parêntese de tempo, só em outras três ocasiões que o índice pluviométrico do mês de número 7 no nosso calendário ultrapassaram a marca de 200 milímetros: No ano de 1999 (201mm.); em 2007 (218mm.); e em 2011 (269mm.).", informa o presidente da Cootil.
Tentando quantificar para exemplificar melhor, considerando os estudos de doutorado do pesquisador e engenheiro agrônomo da Epagri , Dr. Álvaro Back, para produzirmos um hectare de arroz por ano precisamos de algo em torno de 8.000 metros cúbicos de água. Portanto, é necessário quase três vezes o volume de água por hectare que caiu no mês de julho deste ano para produzirmos um hectare de arroz. São praticamente 8 milhões de litros de água por hectare, significando 800 litros de água por metro quadrado.
"À partir do momento que temos consciência da dimensão do volume de água necessário neste caso especifico, para produzir um hectare de arroz, passamos a valorizar, a ter certeza da necessidade e da importância de construção de reservatórios, barragens como a do Rio do Salto, pois temos a necessidade de economizarmos para evitarmos ao máximo a poluição. Enfim, mudar radicalmente a nossa relação com o líquido mais precioso da terra.", finaliza Bardini.
Agricultor fala do momento
De acordo com o agricultor Saul Neotti, 53 anos, morador da comunidade de São Felipe, no interior de Turvo, o momento é preocupante para a rizicultura. "Em comparação ao mesmo período do ano passado, está claro que choveu bem menos.", coloca ele enquanto prepara a terra para o plantio da safra 2015/2016. Saul possui 30 hectares onde cultiva o arroz irrigado.
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