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Coronel Márcio, consultor de Proteção e Defesa Civil da Federação Catarinense de Municípios (Fotos: Divulgação )
Conhecer o risco, fortalecer a percepção das comunidades e ampliar a capacidade de autoproteção são medidas mais eficazes do que esperar pela chegada dos desastres, diz o articulista
As previsões meteorológicas para os próximos meses indicam elevada probabilidade de consolidação do fenômeno El Niño 2026/2027, com possibilidade de persistência ao longo da primavera e do verão. Em Santa Catarina, historicamente, episódios de El Niño estão associados ao aumento da frequência de chuvas intensas, enchentes, enxurradas, alagamentos urbanos e movimentos de massa.
Diante desse cenário, cresce a preocupação da sociedade e também o fluxo informacional nas redes sociais, muitas vezes veiculado de forma alarmista ou como previsões absolutas de catástrofes iminentes. Entretanto, é necessário compreender que o El Niño não representa, por si só, um desastre inevitável.
Desastres ocorrem quando ameaças naturais encontram vulnerabilidades sociais, ambientais e territoriais que não foram adequadamente tratadas. O fenômeno climático pode ampliar a probabilidade de eventos extremos, mas a magnitude de seus impactos dependerá, em grande medida, do nível de preparação das comunidades e da capacidade das instituições públicas de reduzir vulnerabilidades existentes.
O El Niño corresponde à fase quente do fenômeno ENOS (El Niño Oscilação Sul). Sua formação está relacionada ao enfraquecimento dos ventos alísios sobre o Oceano Pacífico Equatorial. O fenômeno permite o deslocamento de águas mais aquecidas para as regiões central e leste do oceano. Essa alteração interfere na circulação atmosférica global e modifica os padrões de precipitação em diversas partes do planeta.
No Sul do Brasil, especialmente em Santa Catarina, a reorganização atmosférica costuma favorecer episódios de chuva persistente durante a primavera e o verão. Os eventos de 1982/1983, 1997/1998, 2015/2016 e 2023/2024 demonstram que o Estado apresenta elevada sensibilidade aos efeitos do fenômeno. Embora ainda seja prematuro afirmar que o El Niño 2026/2027 atingirá intensidade semelhante aos episódios históricos mais severos, a experiência acumulada recomenda uma postura preventiva e acompanhamento permanente das atualizações meteorológicas.
Os impactos mais prováveis para Santa Catarina incluem a elevação dos níveis dos rios em bacias hidrográficas suscetíveis, enxurradas em pequenas bacias de resposta rápida, alagamentos em áreas urbanas impermeabilizadas, deslizamentos em encostas ocupadas, prejuízos à agricultura, interrupções em sistemas de abastecimento de água, saneamento, energia elétrica, danos à infraestrutura viária, sistemas de saúde e consequentes danos humanos, desalojados, desabrigados, feridos e mortes.
Entretanto, a intensidade desses efeitos também depende de outros fatores meteorológicos e geográficos, como o aquecimento do Atlântico Sul, a atuação de frentes frias, ciclones extratropicais, jatos de baixos níveis, além das características do relevo catarinense e do modelo de ocupação do território.
A ampla divulgação do fenômeno nas redes sociais, sem subsídios de fontes oficiais e a checagem de informações, tem produzido interpretações alarmistas e previsões apresentadas como certezas absolutas.
A disputa pela divulgação do cenário mais extremo pode provocar medo desnecessário, prejuízos econômicos, cancelamento de investimentos, descrédito das instituições públicas e redução da confiança da população nos sistemas oficiais de monitoramento.
Por outro lado, minimizar os riscos também representa um erro.
A comunicação do risco deve ser transparente, técnica, contínua e acessível. Conhecer o risco não significa produzir pânico. Conhecer o risco significa ampliar a capacidade das pessoas de tomarem decisões seguras, adotarem medidas preventivas e protegerem suas famílias.
Experiências internacionais demonstram que comunidades preparadas conseguem reduzir significativamente perdas humanas, sociais e econômicas. A preparação da população deve ser entendida como uma política pública permanente e não apenas como uma ação emergencial realizada quando o desastre já está em curso.
Preparar pessoas significa orientá-las a compreender os riscos existentes em seu local de moradia, conhecer os sistemas de alerta, identificar locais seguros previamente definidos, planejar a retirada de famílias residentes em áreas suscetíveis, organizar redes de apoio comunitário, capacitar lideranças locais, realizar simulados periódicos e desenvolver planos familiares de emergência.
Os municípios possuem papel fundamental nesse processo. Atualizar os Planos Municipais de Contingência, mapear áreas suscetíveis a inundações e movimentos de massa, fortalecer a educação comunitária e integrar escolas, associações de moradores, entidades religiosas e organizações sociais são medidas capazes de aumentar a resiliência das cidades catarinenses.
Mais importante do que preparar estruturas para responder aos desastres é preparar cidadãos para conviver de forma segura com eventos climáticos extremos.
O El Niño continuará fazendo parte da dinâmica climática global e seus efeitos poderão ser sentidos em Santa Catarina de maneira recorrente. Não é possível impedir sua ocorrência. É possível, porém, reduzir significativamente seus impactos.
A preparação das comunidades, a disseminação de informações confiáveis, o fortalecimento da percepção do risco e a adoção de medidas preventivas constituem a forma mais eficiente, econômica e humanitária de proteger a população.
Preparar a população não é uma alternativa às ações de Proteção e Defesa Civil. É a prática inequívoca e mais eficaz de proteção das pessoas diante dos eventos climáticos extremos.
Márcio Luiz Alves, Coronel PM RR é Especialista em Proteção e Defesa Civil
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